<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671</id><updated>2011-10-14T10:17:42.068-07:00</updated><title type='text'>léo paiva</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>17</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-8593264435615137471</id><published>2011-10-11T12:25:00.000-07:00</published><updated>2011-10-14T10:17:42.093-07:00</updated><title type='text'>Teaser</title><content type='html'>- Pai, quero uma pomba branca!&lt;br /&gt;- Que novidade é essa, Iberê? Pomba é bicho sujo de rua. &lt;br /&gt;- Então por que o moço tá vendendo naquela loja? Vi um montão na gaiola.&lt;br /&gt;- Que loja?&lt;br /&gt;- Ali ó – Iberê aponta para uma placa onde se lê &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Artigos Religiosos Pena Verde&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;- Vem comigo.&lt;br /&gt;- Oba! Vai comprar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pai e filho entram na loja. Um homem jovem de camisa listrada os atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso ajudar?&lt;br /&gt;- Amigo, o senhor está vendendo pombos aqui?&lt;br /&gt;- Quantos o senhor quer? &lt;br /&gt;- Pai, posso escolher?&lt;br /&gt;- Fica quieto, Iberê! Eu não quero pomba nenhuma. Isso não é animal doméstico. Qual a finalidade?&lt;br /&gt;- O senhor é do Ibama? – questiona o vendedor, sem perder a amabilidade.&lt;br /&gt;- Não, senhor. Sou biólogo. E sei que esses animais transmitem doenças. Imagina se uma criança pouco instruída leva uma pra casa.&lt;br /&gt;- Bom, parece que o senhor também não está bem instruído.&lt;br /&gt;- Olha o deboche – ameaça o biólogo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Após longa pausa, o vendedor junta as mãos e dirige-se a Iberê com ar professoral:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja bem, a pomba branca é símbolo de várias coisas, é o Espírito Santo para o cristianismo e associada também a Oxalá, o orixá mais cultuado do candomblé. Hoje em dia qualquer pessoa usa a pomba pra pregar a paz sem saber bem o significado da... - a explicação é interrompida com rispidez pelo pai de Iberê.&lt;br /&gt;- Tá, tá... e as pombas são vendidas pra sacrifício, não são?&lt;br /&gt;- Isso é uma prática ultrapassada. O sacrifício costumava ser feito ao babalorixá.  Se o senhor quer saber, hoje quem compra mais é esse povo de passeata pela paz. Eles levam pra soltar as bichinhas. Até em evento corporativo andam usando. Virou moda soltar pomba branca por aí. &lt;br /&gt;-  Ah tá! O pessoal que marcha pelos direitos dos animais deve comprar também, correto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vendedor respira fundo, mas mantém o sorriso amável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, eu não sei mesmo. Se não deseja mais nada, peço por favor pra dar a vez a outro.&lt;br /&gt;- Outro? Ué, não tô vendo mais ninguém aqui.&lt;br /&gt;- O senhor é que pensa – sussurra o lojista, dando as costas ao biólogo.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao notar que Iberê brinca no fundo da loja com duas pequena estátuas, o pai decide encerrar o caso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vem Iberê! Larga isso aí!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorado mais uma vez, o pai vai ao encontro do menino. No caminho, tropeça na gaiola, que vem abaixo. A cena a seguir é espantosa: em choque, o vendedor e Iberê vêem as pombas escaparem e lançarem-se contra o biólogo caído. Elas bicam-lhe as costas com selvageria. O menino chora e grita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paaai! Paaai! &lt;br /&gt;- Iberêêêe – grita o biólogo sem entender o ataque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a tardia intervenção do vendedor, as pombas finalmente se afastam, refugiando-se nas prateleiras superiores da loja. Em prantos, Iberê socorre o ensangüentado pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma hora depois, de bruços em uma cama de hospital, sob o olhar do filho e da esposa, o biólogo tem os ferimentos desinfetados. Quando a enfermeira sai por um momento, a esposa nota algo ainda mais incomum que o ataque das pombas da paz. Os cortes formam a enigmática mensagem: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS VIÚVAS DE CHICO XAVIER. &lt;br /&gt;EM NOVEMBRO, NO TELECINE PIPOCA.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-8593264435615137471?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/8593264435615137471/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=8593264435615137471' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/8593264435615137471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/8593264435615137471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2011/10/teaser.html' title='Teaser'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-301034614939477448</id><published>2011-07-19T08:31:00.000-07:00</published><updated>2011-09-22T08:02:32.038-07:00</updated><title type='text'>Acácio não sabe mentir</title><content type='html'>Acácio desce as escadas de roupão. O cunhado Hamilton e a esposa Lili estão a chamá-lo no portão da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Opa! Que surpresa! &lt;br /&gt;- E aí, Acácio, beleza!?&lt;br /&gt;- Firmeza! Peraí, vou segurar a Peteca pra ela não pular em vocês. &lt;br /&gt;- Imagina, deixa a Peteca solta.&lt;br /&gt;- Pronto, é só destrancar.&lt;br /&gt;- Então, rapaz, achou que só porque minha irmã viajou a gente ia te deixar abandonado? Olha, trouxe umas Heinekens.&lt;br /&gt;- Ahhh… eu te amo, Hamilton! Devia ter casado contigo, não com sua irmã. Hahaha!&lt;br /&gt;- Ainda tá em tempo. Haha!&lt;br /&gt;- Não reparem a bagunça! Tudo bem, Lili? E os meninos? &lt;br /&gt;- Xiii... dando a canseira de sempre, Acácio. E você? Muito sozinho sem a Bia?&lt;br /&gt;- Ah, eu tento me distrair né?! Vejo uns filmes, tomo uma cerva com o pessoal do trabalho quando dá, mas fica um vazio danado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hamilton e Lili se acomodam na sala. O interior da casa é o retrato do abandono: copos sujos espalhados, cinzeiros transbordando, folhas secas trazidas por Peteca acumuladas nos cantos, além de uma grossa camada de poeira cobrindo chão e móveis, denunciando a economia com faxina. O ambiente lembra mais uma toca do que um lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pegamos você saindo do banho. Vai lá se vestir enquanto coloco as cervejas pra gelar.&lt;br /&gt;- Tá. Já volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exalando cheiro de colônia, Acácio desce novamente as escadas sem perder o rumo da conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hamilton, Hamilton... sem sua irmã a vida fica difícil demais. Minha barriga até diminuiu. Hahaha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Taciturno, Hamilton observa de perto um enorme arranjo de flores em um vaso sobre a mesa de centro. O enfeite destoa tanto da impessoalidade dos objetos da casa quanto do estilo desleixado de Acácio. Sem encarar o cunhado, Hamilton vai direto ao ponto:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Tô vendo. Que isso aqui, Acácio? Andou ganhando flores?&lt;br /&gt;- Oi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fingindo calma, Acácio se aproxima mansamente. Por cima do ombros de Hamilton, espia as flores com atenção, como se jamais as tivesse reparado. A afetada tentativa de ganhar tempo fica evidente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é... tive essa ideia outro dia. Quis me presentear. Levantar um pouco a auto-estima, sabe?! Todo homem gosta de ganhar flores, Hamilton. Você mesmo devia se presentear com algumas de vez em quando. – Acácio aguarda pelas risadas que não vêm. Sequer um sorrisinho sarcástico dos visitantes. Silêncio sepulcral na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hamilton mantém os olhos nas flores. Lili desvia o olhar para a janela, parece tensa, como se aguardasse pelo pior. Surpreso com o climão, Acácio busca refúgio em Peteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas minha alegria nos últimos tempos tem sido essa cadela. Virou a atração da rua! Muito mais popular que eu. Hehe! Vem cá, menina! – Peteca não se solidariza. Como legítima fêmea, também parece desconfiada. Talvez tenha visto algo que roprovara nos últimos dias ou quem sabe seja apenas um enfastio de cadela sonolenta. Independente do motivo, Peteca ignora seu dono.&lt;br /&gt;- Você ganhou essas flores de uma mulher, não foi?&lt;br /&gt;- Não, Hamilton. Por que essa fixação?&lt;br /&gt;- Talvez porque minha irmã seja obcecada por você. E algo assim ela não iria suportar. Só por isso.&lt;br /&gt;- Pois ganhei as flores do… por um trabalho bem feito. Lá na firma. Meu chefe Getúlio mandou entregar. Qual o problema?&lt;br /&gt;- Ah, você ganhou flores de um homem então?&lt;br /&gt;- De um homem não. Do meu chefe. Lá vem você de novo com desconfianças.&lt;br /&gt;- Talvez porque eu conheça muito bem o Getúlio e saiba que ele não é esse tipo de cara.&lt;br /&gt;- Agora você conhece meu chefe?&lt;br /&gt;- Claro, Acácio! Eu que te indiquei pra ele! Esqueceu? Você tá estranho.&lt;br /&gt;- Estranhos são vocês.&lt;br /&gt;- Opa, não me coloca nessa história, Acácio. Vocês homens se conhecem bem. Devem perceber quando o outro está mentindo.&lt;br /&gt;- Lá vem você também... Qual a treta, afinal? Fala, Hamilton! &lt;br /&gt;- Você não sabe mentir, Acácio.&lt;br /&gt;- Não enche.&lt;br /&gt;- …&lt;br /&gt;- Precisa ser grosso? Hamilton tá desconfiado porque não quer ver a Bia sofrer. Ela já passou por poucas e boas, você sabe bem disso! Além do mais, quer saber? Sua casa tá imunda, a pia cheia de louça suja e ainda vem dizer que adora a cachorra, mas deixa ela sem água e comida na tigela. Pensa que eu não reparei? Porém você se deu ao trabalho de colocar essas flores bregas em um vaso no meio da sala. Decidiu enfeitar esse pardieiro, Acácio? Ora, tenha dó!&lt;br /&gt;- Em primeiro lugar, bromélias não têm nada de brega. Em segundo lugar… bem… vocês sabem que tô passando dificuldades aqui… &lt;br /&gt;- Sem drama, Acácio. Virou expert em flores agora?&lt;br /&gt;- Lili, meu anjo, você e seu marido saíram lá do Cambuci só pra me espionar?&lt;br /&gt;- …&lt;br /&gt;- Vambora, Lili. Antes que piore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acácio se coloca entre a porta e os visitantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hamilton, peraí! Vamos falar sério agora.&lt;br /&gt;- Vamos embora, Hamilton. Por favor!&lt;br /&gt;- Só um minuto, Lili, - hesita Hamilton - vamos dar uma chance. &lt;br /&gt;- Hamilton, não imagina coisas, vai! Encher a cabeça da sua irmã nesse momento seria muita crueldade, você sabe!&lt;br /&gt;- Eu sei, Acácio. Ela já passou por poucas e boas. Não merece mais essa. Mas eu também tô sob uma pressão terrível, meu amigo.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Curto e grosso, Acácio? Não tenho como lhe pagar aquele empréstimo. Os juros acumularam demais e meu restaurante continua na pior.&lt;br /&gt;- Mano… Quer que eu esqueça a dívida? Aí complica né?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lili não se segura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hamilton, o que é isso? Não tô te reconhecendo!&lt;br /&gt;- Peraí, Lili. Hamilton, investi demais no seu restaurante. O máximo que posso fazer é um abatimento. Faria isso pela Bia, que já sofreu demais e não merece saber, inclusive, que o irmão não se veste de mulher somente no carnaval. &lt;br /&gt;- Oi?&lt;br /&gt;- Nem ela, nem o povo da sinuca, do boliche, da academia... ninguém merece saber sobre suas intimidades. Concorda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hamilton fica lívido e Lili irritadíssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hamilton, vamos embora! Tô te pedindo! &lt;br /&gt;- Que foi, Hamilton? Nem lembra que me contou né?! Você tava bêbado, confuso, mas eu lembro de tudo. Disse como o assunto era complexo, mal compreendido pela sociedade. Falou até da Grécia antiga. E eu entendi perfeitamente a sua condição de… como chama mesmo? Crossdresser! Há! É isso! Você é crossdresser, Hamilton!&lt;br /&gt;- E você é doido! Um doente mental! Só pode ser.&lt;br /&gt;- Ué, então por que a Lili ficou calada? Nem te defende, parece conformada.&lt;br /&gt;- Você não tem como provar.&lt;br /&gt;- Nem você pode provar qualquer culpa minha. Jogo fora agora as flores que ganhei da minha tia Dulce. E aí?&lt;br /&gt;- Descarado! Mente três vezes sem nem piscar! Coitada da minha irmã!&lt;br /&gt;- Você disse que eu não sei mentir. Então tanto faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora em desvantagem, Hamilton respira fundo e abaixa o tom:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só contei isso porque achei que você também tivesse bêbado. Me abri com você. Confiei!&lt;br /&gt;- Claro, Hamilton. Pode desabafar sempre que quiser. Não sou só seu cunhado. Somos amigos! Respeito sua privacidade, por isso da minha boca não vai sair nada, pode ter certeza. Conto também com sua discrição. Afinal, o bem da Bia vem em primeiro lugar, certo?&lt;br /&gt;- Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lili permanece indignada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês são podres!&lt;br /&gt;- Hamilton, vou abrir uma Heineken pra gente brindar à Bia! No que depender de mim, ela só vai ter felicidade nessa vida.&lt;br /&gt;- De mim também. Ela já passou por poucas e boas.&lt;br /&gt;- E vamos falar também sobre aquele abatimento esperto. Pensa que eu esqueci? Lili, brinda com a gente?&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-301034614939477448?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/301034614939477448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=301034614939477448' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/301034614939477448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/301034614939477448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2011/07/acacio-nao-sabe-mentir.html' title='Acácio não sabe mentir'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-3160588625439186924</id><published>2011-05-06T11:31:00.000-07:00</published><updated>2011-10-11T13:28:00.512-07:00</updated><title type='text'>O pequeno confeiteiro</title><content type='html'>- Conta do Douglas, Gorete. Ele parou de andar com aquela gente? &lt;br /&gt;- Ai menina, tô tão aliviada.  Apareceu um pessoal pra endireitar ele. São de uma tal ONG, que pega meninos pra treinar, dar uma profissão. Uns homens louros, educados, tão bonitos. São voluntários lá da gringa. Chique! Agora o Doug fica o dia inteiro na oficina, depois vai pra escola. Se tudo der certo, em pouco tempo arruma até um serviço. Eu já agradeço a Deus por ele não estar metido no tráfico feito os outros.  &lt;br /&gt;- Que maravilha! Olha ele chegando lá.&lt;br /&gt;Do portão, Douglas grita para a mãe na laje.&lt;br /&gt;- JOGA A CHAVE, PORRA!&lt;br /&gt;- Ih, chegou enfezado hein.&lt;br /&gt;- Pra você ver a cruz que eu carrego. Não sei a quem puxou... SEGURA AÍ, MOLEQUE!&lt;br /&gt;Doug sobe as escadas de cabeça baixa, sem responder à saudação da vizinha.  Revoltada, a mãe o segue até o quarto.&lt;br /&gt;- Doug, seu mal educado! Minha Nossa Senhora, o que aconteceu? Sua cara tá arrebentada por que?&lt;br /&gt;- Ainda pergunta? É a mesma treta todo dia. Só a senhora que é burra e não vê.&lt;br /&gt;- ALTO LÁ! Quer ficar com o outro olho roxo também? Fala logo, inferno!&lt;br /&gt;- Quando eu andava com o Celinho ninguém me tirava pra otário. Aí virei um “pequeno confeiteiro” de merda e agora até o vendedor de bala do colégio tira onda comigo.&lt;br /&gt;- MOLEQUE INGRATO! Você tem é sorte. Não vai virar trafica igual esse Celinho e aquela cambada. Vai ganhar seu sustento, sem dever a ninguém. Foi uma bênção essa ação social aqui no bairro.&lt;br /&gt;-Sustento porra nenhuma. Fazendo bolo do Pokemón? Acha que eu vou longe?&lt;br /&gt;- Bolo do que? Há há há... você faz isso, filhote?&lt;br /&gt;- VAI TOMAR NO CU!&lt;br /&gt;- BOCA SUJA DE MERDA! Prefere vender pó pra filhinho de papai dos Jardins é?&lt;br /&gt;- MIL VEZES! Aí vão me respeitar. Só a senhora mesmo com essa idéia de confeiteiro do caralho.&lt;br /&gt;- Deixa seu pai ouvir isso. Quebra seus dois braços e aí nem cajuzinho você faz mais.&lt;br /&gt;- Porra, mãe. Tenho 15 anos, já sou crescido pra ser “pequeno qualquer coisa”. Esses branquelos da ONG tão com a vida ganha. Só querem aparecer, pagar de caridoso pra sociedade. Quem se fode é a gente. Ninguém de lá vai me salvar de nada.&lt;br /&gt;- Mas Doug... olha o Cléber, que também foi amparado. O garoto tá um doce com os pais. Tira boas notas, parou de cheirar cola, não fica mais caído por aí.&lt;br /&gt;- Há há há. O Clébão é o mais comédia. Ele faz oficina de papel machê! Nem sei que coisa de viado é essa, mas geral azucrina ele. A senhora não imagina.&lt;br /&gt;- Mas vocês têm que se impor!&lt;br /&gt;- E minha cara tá assim por que, ô gênia? Toda dia é a mesma fita: “E aí padeiro, queimando muito a rosca?”, sendo que eu nem faço rosca na oficina. Aí vou pra cima né?! Já o Cléber é frutinha e ouve zoação calado.&lt;br /&gt;- Virgem Maria! Eu ouvi falar dessa praga nas escolas. Deu no Jornal Nacional, chama “bule” e sempre acaba mal.&lt;br /&gt;- Mãezinha, num quero assustar a senhora, mas se liga no bagulho: É mais fácil eu morrer na mão desses moleques como pequeno confeiteiro do que no grupo do Celinho. &lt;br /&gt;- Não me enrola. &lt;br /&gt;- Lá os manos se protegem. Só arruma treta quem é vacilão.&lt;br /&gt;- Bom, vou falar com seu pai. Deixa ele resolver.&lt;br /&gt;E assim começou a ascensão de Douglas, que viraria um dos principais chefes do crime organizado. Teve fama, mulheres e dinheiro, o que não é pouca coisa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-3160588625439186924?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/3160588625439186924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=3160588625439186924' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/3160588625439186924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/3160588625439186924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2011/05/o-pequeno-confeiteiro.html' title='O pequeno confeiteiro'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-7334694398527783539</id><published>2011-03-01T12:28:00.000-08:00</published><updated>2011-03-23T11:43:20.470-07:00</updated><title type='text'>O Apocalipse segundo Jucelino</title><content type='html'>Molhado pela chuva morna de fevereiro, estafado pelo laboro ingrato, e com o estômago reclamando, Jucelino via aproximar-se o derradeiro ônibus. O último dos três que tomava pra voltar do trabalho à sua casa. Apenas mais um lotação fazendo jus ao nome. Nada animador. O ponto de parada, debaixo do hospital da criança deficiente, abrigava enormes mulheres, sujeitos encardidos, alguns aleijados e, claro, crianças, muitas crianças desgraçadas, e todas choravam convulsivamente. Pouco para resgatar Jucelino da letargia. É impossível qualquer sentimento de misericórdia mútua entre condenados. &lt;br /&gt;Antes mesmo do ônibus traçar seu rasante, a massa já se precipitava rumo ao meio-fio. Um suicídio coletivo? O compacto de corpos úmidos lançou-se para dentro do veículo. Ao entrar, Jucelino sentiu a face pegar fogo. O motorista sorriu-lhe diabolicamente e desembestou-se. O interior da charanga era como um pequeno apocalipse. Pequeno? Bom, talvez para essas coisas não exista um senso de proporção. O calvário de cada um pode ter o tamanho que for, vai ser sempre um calvário. Uma conjunção de forças demolidora. Certo é que, à sua frente, Jucelino não via um apocalipse suntuoso, tipo hollywoodiano, dantesco... via o apocalipse real, que começa a queimar por dentro, e mata devagar.&lt;br /&gt;O motorista conduzia a fila de desvalidos com fúria. Trancos, freadas repentinas, curvas inesperadas. O ranger da carroceria lembrava o som de uma grande galinha. O odor nauseabundo do interior do veículo, composto de suor e imundícies, incomodava menos a Jucelino que o contato físico com os outros passageiros. Mal conseguiam se mexer. A chuva apertava lá fora e mais pessoas molhadas entravam pela porta da frente. Ao despertar por um momento, Jucelino começou a ouvir um canto, mais parecido com a prece de um faminto, que chegava a seus ouvidos misturado a leves apupos de escárnio. &lt;br /&gt;Um violeiro, em meio ao caos, tentava angariar esmolas, ou quem sabe catequizar o povo à sua volta com alguns versos: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nós descei, divina luz! &lt;br /&gt;A nós descei, divina luz! &lt;br /&gt;Em nossas almas acendei &lt;br /&gt;O amor, o amor de Jesuuuus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A canção do miserável despertou a multidão. Mas não da forma desejada. Os viajantes se converteram em demônios zombeteiros. O líder da desordem era o cobrador, que atirava insultos e sorria cheio de maldade. “Jesus tá bem longe daqui, mano.  Aqui quem domina é o chifrudo”. Ao redor, outros demônios gargalhavam. Jucelino observou uma frágil mocinha de cabelos oxigenados transfigurar-se. A boca crispava-se em um sorriso torto, enquanto os olhos ainda guardavam a tristeza eterna. Logo todos se juntaram à opressão. Até mesmo uma frágil idosa de pele cinzenta. “Que o diabo carregue esse violeiro daqui. Já não basta tanta desgraça?”.  Ainda em transe, o sujeito não se deixava intimidar. Mesmo sem espaço algum, conseguia dedilhar o violão remendado. E cantava com ardor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinde, Santo Espírito &lt;br /&gt;E do céu mandai &lt;br /&gt;luminoso raio!  &lt;br /&gt;Vinde, Pai dos pobres, &lt;br /&gt;Doador dos doooons, &lt;br /&gt;Luz dos coraçõõões!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inflamados pelas provocações do cobrador, alguns rapazes gritavam em uníssono: “Satã! Satã! Satã!Satã! Satã! Satã!” O cantor solitário ainda defendia sua canção com valentia, mas em suas notas já demonstrava sinais de irritação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande defensor, &lt;br /&gt;Em nós habitai &lt;br /&gt;e nos confortaaaaaai! &lt;br /&gt;Na fadiga pouco, &lt;br /&gt;no ardor brandura &lt;br /&gt;e na dor ternuraaaaa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos de Jucelino, os demônios inspiravam muita pena e pouco horror. Porém quem era ele para julgar? Ali não havia sinais de salvação. Nenhum arcanjo Gabriel para empunhar a espada contra infiéis. Apenas o chato e seu violão, empunhado de forma guerreira, como reconheceu Jucelino. Mas demasiado humano que era, perdeu a classe após muitos insultos à sua fé. “Sou servo do senhor, vocês riem porque servem ao outro, ao inominável”. Alguns riram como quem ri de uma criança birrenta e inofensiva. Talvez esperassem uma reação mais virulenta. Em tom irônico, o cobrador retrucou: “Inominável? Mas tá falando difícil hein mano?! Aposto como nem você entende o que canta. É ou não é?” Jucelino não deixou de estranhar o fato do violeiro se manter alheio enquanto era xingado e encher-se de fúria ao perceber olhares condescendentes à sua volta. “És tu pecador! És tu o inominável! Tu e todos esses demônios aí, que me arreganham os dentes. O inominável está em cada um de vocês. Por isso sofrem! E vão queimar pra toda a eternidade!” Aquela verborragia condenatória jogou na lona a paciência dos passageiros. Mesmo o cobrador se desinteressou pelo pregador. O próprio Jucelino via no miserável uma besta do apocalipse anêmica demais. &lt;br /&gt;Mergulhado no blecaute das ruas, o ônibus enfim parou. O violeiro levantava seu instrumento como uma espada. Ao ver a porta se abrir bradou contra todos. “Vocês estão condenados. Condenados a viver na escuridão! Marchem pra fora! Assim ordena o Criador!” De cabeças baixas, desciam os passageiros, inclusive Jucelino. Pareciam realmente marchar rumo à danação. Após descer o último passageiro, uma voz grave e cortante, talvez a do próprio Criador, dirigiu-se ao violeiro: “Desce daí! É ponto final pra você também, seu maluco!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-7334694398527783539?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/7334694398527783539/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=7334694398527783539' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7334694398527783539'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7334694398527783539'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2011/03/o-apocalipse-segundo-jucelino.html' title='O Apocalipse segundo Jucelino'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-6072078259578834155</id><published>2010-11-03T12:33:00.000-07:00</published><updated>2011-07-01T11:14:43.443-07:00</updated><title type='text'>Pelados na novena</title><content type='html'>Seu Amadeu, síndico do edifício Santa Paula, vinha pela calçada fumando um cigarrinho. O vício era responsável pelo abjeto tom amarelo do bigode, e também pela voz cavernosa. Ao vê-lo aproximar-se do prédio, o porteiro Raimundo empertigou-se e abriu o portão antes do síndico apertar a campainha. A reverência do porteiro parou por aí.&lt;br /&gt;- Oxente, seu Amadeu?! Voltando cedo assim pra casa?! Não vai ao boteco do Olavo hoje? Vai ter jogo da Lusa agorinha, sabe não?&lt;br /&gt;-Hoje é o primeiro dia da novena. Fiquei de receber as pessoas e comandar as orações no salão. Acompanha o jogo aí e me avisa se sair gol. Vê se não dorme no posto, cabra. Se te pego cochilando de novo, já sabe...?!&lt;br /&gt;-Cochilando o que, seu Amadeu!? Sou disso não. Aliás, o povo já começou a chegar.&lt;br /&gt;Subitamente, síndico e porteiro começaram a cochichar. Falavam assim quando o assunto era a vida de outros condôminos. &lt;br /&gt;-Ah é? Quem tá aí dentro?&lt;br /&gt;-Seu Duílio.&lt;br /&gt;-Ave Maria! Num vou com a cara desse velho tarado. Pior é deixar ele aí dentro sozinho, na companhia da santa. Ele tá composto, pelo menos?&lt;br /&gt;-Hehe. Tá sim. Mas cedinho ele foi à padaria com aquela calça de pijama transparente, a da braguilha aberta, sabe qual é?&lt;br /&gt;-Sem vergonha exibido! Se eu pudesse, despejava daqui sem dó! Opa, tá chegando gente. Aham... boa noite. – tentou aveludar a voz áspera.&lt;br /&gt;Do elevador saiu a viúva Doralice, sessentona alta e esguia, de beleza ainda viva. Ela gentilmente segurou a porta enquanto a fiel Magali, senhora maltratada pelo tempo, puxava para fora a cadeira de rodas de sua irmã mais velha, Conceição. A anciã incapacitada tinha o semblante carregado. Sua amargura era sentida à distância. Normalmente, as pessoas evitavam olhá-la de frente, por pudor ou sei lá o quê.&lt;br /&gt;Pelas escadas, surgiu seu Tide, um pequenino idoso cheio de disposição. Era gentil com todos, mas só tinha olhos mesmo para Doralice. Nas mãos, alguns botões de rosa amassados. Ao ver as senhoras, ele os distribuiu. &lt;br /&gt;- Oh! Seu Tide é sempre um gentleman. – comoveu-se Doralice, com sua voz melodiosa de coralista da igreja, para em seguida dirigir-se firme ao síndico – Seu Amadeu, já bati em alguns apartamentos, mas acho que hoje não desce mais ninguém. Vamos pro salão?&lt;br /&gt;- É o que eu ia dizer, Dona Doralice. Já passou da hora. Não vamos deixar a Nossa Senhora esperando, né!? – Seu Amadeu, ex-militar, bem sutilmente deixava claro que não estava habituado a receber ordens de uma mulher.&lt;br /&gt;As três senhoras entraram primeiro, seguidas por seu Amadeu e seu Tide, que fez questão de deixar todos passarem à sua frente. O excesso de salamaleques do velhinho parecia incomodar o síndico. Dentro do salão, o grupo se deparou com seu Duílio, de cabelos engomados, vestindo um blazer xadrez antiquado. Ao vê-lo, Conceição acentuou o amargor da expressão. A única a cumprimentá-lo foi Magali:&lt;br /&gt;- Seu Duílio!? Como vai o senhor? Pensamos que não vinha mais ninguém.&lt;br /&gt;- Chh... Chh... Cheguei faz tempo! – A gagueira do velho se manifestava apenas ao iniciar frases.&lt;br /&gt;O cenário do salão era enxuto: apenas uma mesa, coberta por uma toalha de renda impecável, uma jarra d`água e outra com suco de laranja, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ao centro, e algumas cadeiras encostadas nas paredes.&lt;br /&gt;Seu Amadeu postou-se de pé à cabeceira. Todos guardaram silêncio. A solenidade foi quebrada pelo som da folha de papel que o síndico tirou do bolso e desamassou. Olhares curiosos voltaram-se para ele.&lt;br /&gt;- Bom, antes de começarmos, queria fazer uma... digamos... elucidação. Hoje em dia, a internet nos deixa a par de muitas coisas e, minha netinha, que é fera nessas coisas, imprimiu esse texto. Aqui explica um pouco o termo novena, que talvez nem todos conheçam a fundo... – Seu Amadeu colocou os óculos e iniciou a leitura de um artigo da Wikipedia – Novena é um encontro para orações, realizado durante o período de nove dias, daí o nome novena. Por excelência, trata-se de uma tradição com origem no imaginário da tradição católica, mas pode ser encontrado em outras tradições ou crenças... me perdi aqui, um momento.&lt;br /&gt;Ao perceber que a narração ainda seguiria em frente, Conceição revirou os olhos e respirou fundo em desagravo, o que motivou Doralice a frear o ímpeto do síndico.&lt;br /&gt;- Seu Amadeu, o senhor me desculpe. Sei que é a primeira vez que conduz as orações, mas acho isso desnecessário. Sabemos o significado de uma novena. Além do mais, se atrasarmos muito vamos acabar perdendo a novela, que tá pegando fogo nos capítulos finais, né gente!?&lt;br /&gt;Conceição e Magali sacudiram a cabeça afirmativamente. O síndico, a contragosto, acatou:&lt;br /&gt;- Claro, claro. A novela é o mais importante de tudo, não é!? Vamos começar. Demos as mãos.&lt;br /&gt;BLAM BLAM BLAM&lt;br /&gt;Para impaciência geral, agora alguém batia forte na porta. Mesmo sem qualquer permissão, um rapaz de capuz e arma em punho entrou no salão. Todos ficaram assombrados.&lt;br /&gt;- Opa, desculpa aí gente boa, mas é que a gente tá assaltando o prédio. Quero ver todo mundo quieto, sem falar ou se mexer, senão leva chumbo, tá ligado!? Tem nenhum surdinho aí não né?! Ótimo!&lt;br /&gt;- Tá brincando, moleque!? Ponha-se daqui pra fora! – indignou-se a voz cavernosa de Seu Amadeu.&lt;br /&gt;O assaltante deteve-se por um instante, examinou os presentes e, quase gargalhando, expôs a idéia que tivera.&lt;br /&gt;- Eu vou sair mesmo, ô do bigode. Mas vocês ficam aqui... pelados. Quero ver alguém fugir assim. Dou trinta segundos pra geral tirar a roupa. Um, dois, três... Vamo, porra!&lt;br /&gt;O grito fez todos estremecerem, porém ninguém ameaçou se despir.&lt;br /&gt;- Deixa eu ver em quem atiro primeiro... ah, na tia da cadeira ali. Já tá com o pé na vala mesmo.&lt;br /&gt;CLICT&lt;br /&gt;-Não! Peloamordedeus! – implorou Magali, enquanto desabotoava a blusa.&lt;br /&gt;Seu Duílio já estava sem camisa. Os outros começavam a se despir lentamente. Menos Conceição, que de tanto pânico desmaiou. Magali desesperou-se ainda mais:&lt;br /&gt;-Acudam aqui, minha nossa senhora!&lt;br /&gt;-Cala a boca! Ninguém se mexe. Vamo colocando as pelancas pra fora aí. Cês tão ligados que o “paraíba” da portaria tá com o cano na cabeça? Tem ninguém para acudir não. Vou é fuzilar geral.&lt;br /&gt;-Paraíba filha da puta! Devia estar ferrado no sono quando entraram. Por mim pode atirar nesse jumento! – esbravejou o síndico de cuecas.&lt;br /&gt;-Logo se vê que o senhor não tem moral alguma pra conduzir uma novena. – ultrajou-se Doralice, que exibia formas ainda firmes sob a lingerie recatada.&lt;br /&gt;Seu Duilio já estava totalmente nu. Era o único a não aparentar terror. Tal tranquilidade chamava a atenção dos outros, ainda resistentes em seus trajes menores.&lt;br /&gt;-É pelado, porra!&lt;br /&gt;Pronto. Todos ficaram nus. Magali chorava baixinho, escondida atrás da cadeira da irmã desmaiada.  A viúva Doralice, mais desamparada do que nunca, tapava os seios e o sexo com as mãos. Seu Tide cobria as vergonhas com uma bandeja, assim como Seu Amadeu, único a fulminar o assaltante com ódio. Seu Duílio parecia estar em uma praia nudista, pois não cobria nada e tinha a face e o pescoço rubros.&lt;br /&gt;- Todo mundo quietinho. Vou sair e trancar a porta. Se gritar, o porteiro morre. Já avisei. – Com uma trouxa de roupas na mão, o jovem assaltante retirou-se.&lt;br /&gt;Apenas o choro esquálido de Magali quebrava o silêncio no salão. Ninguém se dignava a levantar o olhar para o outro. Subitamente, seu Tide saiu da letargia para assumir uma postura heróica. De forma desajeitada, ele colocou a santa e as jarras no chão e, com muita dificuldade, tentou arrastar a pesada mesa para o canto. As mulheres o fitaram por um momento, mas a visão do velhinho pelado se esforçando daquela forma era degradante demais.&lt;br /&gt;- Que cê tá fazendo, homem? - indagou confuso o síndico.&lt;br /&gt;-Não tá vendo? Vou virar a mesa para as mulheres se abrigarem atrás dela. É o mínimo que podemos fazer por estas senhoras.&lt;br /&gt;-Mas você não vai conseguir fazer isso sozinho. – Seu Amadeu achava aquilo uma babaquice inútil, mas cerrou fileira com seu Tide. E para manter a fama de durão, emendou uma ordem para o distraído seu Duílio. - E você aí, não ajuda? Isso aqui não é um camping naturista, seu velho safado!&lt;br /&gt;Seu Duílio se espantou com a reprimenda, mas caminhou obediente até a mesa para ajudar na missão. Juntos, os três se esforçavam pra virar a mesa de lado. Quando se abaixaram para concluir o serviço foram surpreendidos por um grito terrível. Conceição recobrara a consciência e agora tinha, à sua frente, três bundas nada formosas empinadas em sua direção. Magali correu para tentar acalmar a irmã, porém Conceição estava histérica.&lt;br /&gt;-Saiam de perto de mim! Saiam de perto da Santa! Vocês são todos tarados. Vão queimar no inferno! Vão queimar no inferno!&lt;br /&gt;-Calma, minha irmã. Você não se lembra do assalto? – As tentativas da irmã só exasperavam ainda mais a senhora.&lt;br /&gt;-O que estes depravados fizeram com você? Cadê sua roupa? Isso só pode ser um pesadelo! Me tirem daquiiiiiiii. Socoooooooorro!&lt;br /&gt;Desorientados, os três senhores se espremeram no canto, perto de uma porta de vidro que levava à garagem. Doralice se aproveitou do abrigo improvisado e entrincheirou-se atrás do mesão. Ficou de lá assistindo o caos reinante.&lt;br /&gt;-Não grita, pelo amor de Deus! Eles vão matar o porteiro, minha irmã.&lt;br /&gt;-Me tirem daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!&lt;br /&gt;Em meio à confusão, seu Tide olhou para trás e viu, através da porta de vidro, uma família inteira os espreitando da sacada do prédio vizinho. Fez para eles uma mímica desesperada. Pedia que ligassem para a polícia, mas os vizinhos pareciam não entender a mensagem, pois responderam com insultos inaudíveis.&lt;br /&gt;Magali virou a cadeira da irmã para a parede. Conceição parou de gritar, mas caiu em prantos sofridos. Entre soluços balbuciava:&lt;br /&gt;-Como pode? Um espetáculo nojento desses... na frente da santa. Malditos... tarados... Magali, quero você fora da minha casa. Vai mendigar na rua, mas comigo não mora mais...  &lt;br /&gt;Agachados pelo salão, todos mergulharam em profundo pesar. Após alguns minutos, seu Amadeu despertou do transe. Caminhou até a porta e começou a esmurrá-la aos berros.&lt;br /&gt;-Abram essa meeeerda! Seus covaaaardes! Podem me matar, seus filhos d`uma puta! Eu sou muito é homem, seus viaaaados! &lt;br /&gt;O síndico gritou até perder a voz. Em certo momento, o alarido surtiu efeito, pois do outro lado alguém enfiou a chave atabalhoadamente na fechadura. Magali estremeceu.&lt;br /&gt;-Ai, meus Deus! Voltaram pra matar a gente.&lt;br /&gt;Surgiram as figuras de dois policiais fardados. &lt;br /&gt;-O que é isso aqui afinal de contas? – parecia não acreditar no que via um dos policiais.&lt;br /&gt;-Graças aos céus! – suspirou Magali.&lt;br /&gt;O porteiro vinha logo atrás dos policiais. Agoniado, tentava explicar o acontecido.&lt;br /&gt;-Seu Amadeu! Eu falei pra eles que teve um assalto. Os bandidos tavam aqui até agorinha, mas eles dizem que receberam outro tipo de denúncia. Acredita nisso?&lt;br /&gt;-Cala a boca, seu asno! Sei que a culpa disso tudo é da tua molenguice! Preguiçoso de merda!&lt;br /&gt;-O senhor se acalme, por favor! Cadê a roupa dos senhores? Ô porteiro, pega alguma coisa pra eles se cobrirem. Negócio é o seguinte: os moradores do prédio ao lado fizeram uma denúncia de ato obceno ocorrendo neste local. &lt;br /&gt;Ao ouvir a voz da autoridade, Conceição suplicou:&lt;br /&gt;-É isso sim senhor! São todos uns tarados sem o menor respeito pela santa. Me tire daqui, por favor! Me salve, seu policial! Me salve!&lt;br /&gt;-A senhora está louca? – descabelou-se, seu Amadeu.&lt;br /&gt;-Silêncio! Vamos averiguar tudo que aconteceu aqui. Vocês três se cubram e venham até aqui fora prestar esclarecimentos.&lt;br /&gt;-Como assim três? Onde estão seu Tide e dona Doralice? – observou Magali.&lt;br /&gt;-Virge Santa! Tavam aqui agorinha. Pra onde escapuliram? – questionou o porteiro, ainda sob a mira implacável do síndico.&lt;br /&gt;A pedido da polícia, o porteiro subiu até os apartamentos dos dois sumidos, mas ninguém o atendeu. Pensou em procurar nas escadas, mas ao ouvir risinhos abafados vindos de lá, deteve-se. Era um momento especial. Achou melhor não interromper nada. Desceu novamente para a portaria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-6072078259578834155?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/6072078259578834155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=6072078259578834155' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/6072078259578834155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/6072078259578834155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2010/11/pelados-na-novena.html' title='Pelados na novena'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-5032610012372972619</id><published>2010-03-16T11:49:00.000-07:00</published><updated>2011-07-19T10:46:18.673-07:00</updated><title type='text'>A loja</title><content type='html'>- Onde eu tava com a cabeça quando embarquei nessa?&lt;br /&gt;- Estava com a cabeça na bufunfa, queridinho.&lt;br /&gt;-Queridinho?!  O que houve com você, Cardoso? Só porque da noite para o dia assumiu que é gay vai passar a falar desse jeito? Se olha no espelho! Um senhor de bigodes!&lt;br /&gt;- Ai como você é veeeelho, Armando. Eu sempre tive o mesmo jeito de falar. É que com você precisei ter outra... digamos... postura! Aliás, todo mundo precisa ser meio careta ao seu lado. É fato. Pensa bem, te dei várias pistas. Lembra das minhas assaduras de fundo emocional? Pois é. Só você pra acreditar nisso. &lt;br /&gt;- Que nojo! Cardoso, eu nunca fui preconceituoso, você sabe.  Quando você me chamou para ser sócio nessa loja de coisas... hum, fálicas, eu estranhei, mas levei a sério o potencial do negócio. Afinal, o que mais tem em São Paulo é viado e engraçadinho descolado. Enfim, cliente não ia faltar. Só que agora você decidiu jogar merda no ventilador, né?&lt;br /&gt;-Não são coisas fálicas, Armando. É piroca mesmo. Cacete. Rola. Jeba!! Shampoo, chocolate, pasta de dente, tubo de chantilly, biscoito para cachorro e tudo que se possa imaginar no formato de um latejante caralho! Entendeste agora?&lt;br /&gt;-Fala baixo! Olha o cliente aí. &lt;br /&gt;Uma menina cadavérica e um gordinho de topete laranja entram na loja. Os dois parecem encantados com a variedade de produtos disponíveis. Após uma rápida olhada nos cosméticos, vão para o setor de comestíveis. Entre cochichos, o gordinho comenta com a amiga:&lt;br /&gt;-Não te falei? É tudo em formato de pinto. Esses caras são geniais. Leu a entrevista de um deles para a revista Negócios SP? – A menina balança a cabeça afirmativamente e lança um olhar simpático para Armando e Cardoso, estáticos atrás do balcão.&lt;br /&gt;Com passinhos curtos, o gordinho se aproxima dos dois e desabafa:&lt;br /&gt;-Amei a loja. Vocês têm a cara de Sampa. Tipo... uma cidade assim... de pessoas corajosas, empreendedoras, que dão a cara para bater, que se assumem de ver-da-de.  Ai, desculpa... tô sendo chato? Tô falando demais? Então...&lt;br /&gt;Armando, com um sorriso melancólico, sentia o estômago revirar à medida que o gordinho perdia o fôlego. Não tinha porque ser admirado, refletia. Afinal, montara esse negócio esdrúxulo com Cardoso, até então um machão convicto, porque parecia uma forma bem-humorada de levantar dinheiro para abrir seu escritório de consultoria financeira. Não estava em seus planos ser alçado à categoria de personalidade gay. O fato é que após a entrevista de seu sócio, todos achavam que ele e Cardoso formavam um casal, concluía com horror. &lt;br /&gt;Alheio às preocupações de Armando, Cardoso gentilmente mima os visitantes:&lt;br /&gt;-Ai, imagiiiina. Vocês é que fazem o sucesso da loja. Fico é contente em saber que não vivemos mais numa era tão careta, sabe? Vocês não viveram na ditadura, nem sabem como era... Bom, deixa eu mostrar para vocês umas novidades. Já viram estes fantoches? É para teatrinho de adultos, ok? Nada de dar para a sobrinha. Rárárárá... &lt;br /&gt;Armando se contorcia. Porra! O Cardoso era um funcionário público salafrário que mamava nas tetas da ditadura. Como pode ser tão cínico? – se questionava, cada vez mais moralista.&lt;br /&gt;A menina, menos deslumbrada, muda de assunto:&lt;br /&gt;-Meu, como vocês conseguiram tantos produtos nesse formato? Deve ter um milhão de paus espalhados por aqui – Todos riram, menos Armando.&lt;br /&gt;-Se-gre-do. Eu sou um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;businessman&lt;/span&gt;, né gente?! Tenho muitos contatos. – respondeu Cardoso, com as mãos na cintura, mais afetado do que nunca.&lt;br /&gt;Antes de ir embora, o gordinho comprou um pênis de chocolate meio amargo para presentear um colega de trabalho hetero. “Só de zoação”. Armando pensou em como o sucesso da loja estava associado ao crescimento do consumo irônico. Todo mundo vive colocando malícia infantilóide nas coisas. Odiava essa turminha irreverente. Se sentia deslocado naquele ramo, apesar das boas vendas. E para completar, a fanfarronice do sócio, estampada em uma revista de grande circulação, o deixara realmente puto. &lt;br /&gt;-Olha para isso, Cardoso! Todos pensam que somos um casal! Eu devia te cobrir de porrada, mas acho que você vai é gostar...&lt;br /&gt;-Vou mesmo. Agora fica calmo, pensa comigo: a entrevista foi uma grande jogada de marketing. A confissão de minha homossexualidade é só um detalhe. Pouco importa. O importante é que o interesse pela nossa vida privada vai atrair mais e mais clientes.&lt;br /&gt;-Jogada de marketing é o caralho! Você sempre foi um enrustido e aproveitou os holofotes para sair do armário. Só não precisava mentir a meu respeito.&lt;br /&gt;-Não coloque palavras na minha boca. Eu não disse nenhuma mentira. &lt;br /&gt;-Não disse? Vou ler o maldito trecho para refrescar sua memória: “Não nego minha homossexualidade, já o meu sócio é bastante discreto. Jamais faria uma confissão dessas. É um direito dele. Mas posso revelar que a empatia entre nós, torna o sucesso da loja mais consistente. Quando a  gente se une a alguém que gosta, o resultado é sempre feliz...”. E por aí vai... puta que o pariu!! Se isso não é chamar alguém de viado publicamente, eu não sei o que é!&lt;br /&gt;-Desencana, Armando. Somos personagens da vida paulistana. Estamos sujeitos a fofocas. Vai por mim, isso é bom para o negócio.&lt;br /&gt;-Vai falar isso para a Dulce! Por mais que eu repita a ela que nunca tive um caso com meu amigo de infância, ela sempre ficará desconfiada. Meus amigos do boliche agora acham que eu mordo a fronha desde criancinha. &lt;br /&gt;-Nossa! Eles pensam isso? Será que é porque você abriu uma loja de caralhos chamada Here comes the fun no meio da rua Augusta? Ou será por motivos mais secretos? Conta pra mim, Mandinho.&lt;br /&gt;-Dobra tua língua, safado! Só dei essa bandeira toda porque achei que nossa parceria renderia grana. Mas não era esse tipo de “parceria” que eu tinha em mente. Você vai se retratar publicamente!&lt;br /&gt;-Ora, não delira. Depois sou eu que tenho mania de grandeza. O que está feito está feito. A Dulce que se lixe. Se te trata desse jeito é porque não merece você.&lt;br /&gt;-Vou te mostrar o que VOCÊ merece. – Armando empurra Cardoso com violência sobre uma mesa repleta de velas em forma de pênis. Várias se quebram no chão.&lt;br /&gt;Cardoso levanta possesso com a atitude do sócio:&lt;br /&gt;-Aaaahhh! Ficou doido? Olha o prejuízo, seu mané! Essas velas são importadas do Brunei! &lt;br /&gt;-Eu vou quebrar cada falo desses na tua cabeça até você ir se explicar com a Dulce e com o jornal.&lt;br /&gt;-Rárárá. Não seja patético! Você acha que eu deixei de ser homem porque me assumi? Te quebro a cara se encostar em mais alguma mercadoria. Experimenta!&lt;br /&gt;-Vamos ver.&lt;br /&gt;Armando tenta dar um soco em Cardoso, mas é surpreendido pelo sócio, que amortece o golpe e o imobiliza. Roxo de raiva, Armando vocifera:&lt;br /&gt;-Bicha escrota! Esse é o braço que tem um pino, espera até eu te pegar com o outro. Arrrgggh.&lt;br /&gt;-Eu fiz aulas de defesa pessoal, sabia!? Agora, fica calminho, nenê.&lt;br /&gt;Dulce entra na loja e presencia Cardoso dando uma gravata em Armando. Transtornada, se despede sem avaliar a situação:&lt;br /&gt;-Como fui idiota em querer me meter na relação de vocês. TCHAU, Armando!&lt;br /&gt;Cardoso solta o amigo e ele corre para a porta.&lt;br /&gt;-Dulce!&lt;br /&gt;Armando tenta perseguir sua namorada porém é puxado de volta para dentro da loja.&lt;br /&gt;-Eu não acredito! Você quer me deixar puto mesmo, pois então ago... – Aflito, Cardoso o interrompe.&lt;br /&gt;-Shhh! Olha ali.&lt;br /&gt;-Oi?&lt;br /&gt;-Não tá vendo? Encostados no carro ali. Um bando de carecas! E tão armados, pode acreditar! Esses caras tão afim de confusão, Armando. Vamos fechar a loja. Chama a polícia!&lt;br /&gt;-Ora, vai se foder! Eu vou atrás da Dulce. Cadê sua defesa pessoal agora? Tomara é que te comam na porrada mesmo.&lt;br /&gt;-Cuidado, Armando!&lt;br /&gt;O crânio de Armando é golpeado com um cano de alumínio, enquanto o sócio é arrastado para os fundos da loja. Nos fundos, entre um insulto e outro, Cardoso leva uma surra impiedosa. Pior sorte teve o inconsciente Armando. Atirado no chão, não pode se defender de vários pisões na cabeça. O sangue saía pela boca, pelos ouvidos, pelo nariz e lhe empapava os cabelos. &lt;br /&gt;A entrevista para a revista Negócios SP tornou-se irrelevante. Nos dias que se passaram, Cardoso experimentou uma fama muito mais consistente. Manchetes denunciavam a violência sofrida por ele e o amigo, grupos gays pediam justiça, a população repudiava a existência de jovens neo nazistas e a discussão fervia em tudo quanto é canto. Mas infelizmente, o nome mais citado era o de Armando Queiróz, que não resistira aos ferimentos e agora era alçado à condição de mártir da causa homossexual.&lt;br /&gt;Mesmo com menos dentes na boca, Cardoso convoca órgão de imprensa para soltar o verbo:&lt;br /&gt;-Gente, isso passou do limite! Não foi um ato cometido por alguém que ganhou um pinto de chocolate e não gostou, entendem? Esse tipo de reação não cabe mais nos dias de hoje. Eu vivi os anos de ditadura, sei como era terrível. Parece que a repressão está de volta! Meu companheiro está morto e essa tragédia tem que servir para discutirmos mudanças na maneira de enxergar o público GLBT. Chega de reclusão e intolerância!&lt;br /&gt;Dulce prefere se recolher. Cardoso vira a viúva oficial de Armando.  Fica em evidência durante alguns meses, aparece no programa de Luciana Gimenez na TV, mas aos poucos some da mídia.&lt;br /&gt;Seis meses depois, Cardoso reaparece. Agora à frente de um movimento gay, decidido a emplacar um pacote de leis municipais à favor do direito dos homossexuais manifestarem sua opção sexual em locais públicos. Também pediam punição específica para atos que infligissem tais direitos. O pacote de leis, aprovado pela câmara, é batizado com o nome de Armando Queiróz, mas popularmente é conhecido como Lei Arco Íris. &lt;br /&gt;Ao repórteres, Cardoso declara emocionado:&lt;br /&gt;-Esse é o ato final. Seja onde estiver, agora Armando está mais feliz. Descanse em paz, meu amigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-5032610012372972619?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/5032610012372972619/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=5032610012372972619' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/5032610012372972619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/5032610012372972619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2010/03/loja.html' title='A loja'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-6072323509731150860</id><published>2009-08-14T14:03:00.001-07:00</published><updated>2011-07-28T13:53:41.227-07:00</updated><title type='text'>Eu, Croquete</title><content type='html'>Podia dizer que minha vida foi em vão. Afinal, aqui estou há quase 24 horas, deteriorado e sem perspectiva alguma de ser ingerido. Inclusive, sinto a consciência me fugir, à medida que salmonelas consomem meu interior. Apesar de estar azedo, posso, pelo menos, oferecer um testemunho sobre o que vivi. Talvez assim a minha trajetória não se torne uma inutilidade completa.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ainda jovem, na manhã de ontem, quando eu era um croquete fresquinho e vistoso, compartilhei esperanças com outros colegas de estufa. Pura diversão. Não tínhamos muitos objetivos na vida. Podíamos ser comparados a uma turma de calouros, que deseja se enturmar e experimentar o máximo de sensações possíveis. Afinal, nossa existência é tão efêmera... então tudo deveria ser encarado como uma agradável novidade. Mas não foi bem assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizeram parte de minha geração algumas coxinhas, sensuais e douradas, cientes do papel de prestígio que desempenham nas refeições cotidianas, tinha também uns poucos quibes, inatingíveis como príncipes exilados, uma meia dúzia de bauruzinhos, tipos leves e descompromissados, além de outros irmãos croquetes. Irmãos? Bem... não chega a tanto. A consciência de nossas origens nebulosas gerava desconfianças mútuas. Na outra ponta da estufa, instalaram-se algumas salsichas empanadas, totalmente desordeiras. Tais tipos me provocavam certo desconforto. Não era preconceito, mas sabe como é!? Às vezes o santo não bate. Aliás, preconceito mesmo, quem sentiu na pele fui eu. Como disse antes, os croquetes não possuem uma receita bem definida. Não sabemos muito sobre nossas origens, ou seja, os ingredientes que nos constituem são pra lá de suspeitos. Repletos de contra-indicações, eu diria. Carnes e temperos obscuros podem ocasionar problemas sérios para quem os consome. O pessoal lá da estufa foi percebendo isso aos poucos. Viramos os mestiços nocivos, os mulatos da turma. Sabe amigo, esse ambiente não é muito diferente da vida na sociedade humana. Nos habituamos às chegadas e partidas, à insegurança quanto ao futuro, aos amores frustrados e também à segregação social. E para completar, quando um croquete chega ao crepúsculo de sua existência, ninguém nos reverencia ou pede conselhos. Querem mais é nos empurrar para a boca de algum cão vira-lata, o que seria uma completa desonra. Deixemos isso para lá por enquanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de relembrar algo bom, ou quase isso. Se hoje sou imune ao amor, no passado, já experimentei seu contágio. Mais precisamente ontem, ao meio-dia. Uma coxinha enorme, suculenta e crocante, chegou sem pedir licença à nossa estufa. Era a maior do grupo. Uma explosão de nutrição! Deus! Cabia um frango inteiro ali dentro! Perdoem a exaltação. É que nessa época sentia uma carência terrível. Mesmo tendo aquela multidão de croquetes ao meu redor. Sei lá, era como se não falássemos a mesma língua, sabe?! E para piorar, éramos evitados pelos outros salgados. Mas com aquela coxinha foi bem diferente. Ficamos inseparáveis. Trocávamos impressões sobre tudo. Ela era muito espirituosa. Vivia fazendo piadas com a barriga do cozinheiro, criticando de maneira mordaz os fregueses que passavam ali pelo nosso boteco, enfim, era uma coxinha à frente do tempo dela. Mas sabe aquela máxima melancólica dos homens, que diz que a felicidade dura pouco?! Pois é, comprovei a teoria. Sempre comentávamos entre gargalhadas o ar blasé e afrescalhado dos sanduíches naturais. Ela me matava de rir quando os imitava. Realmente, não dava para levá-los a sério. Ainda bem que viviam isolados lá no freezer. Afinal, eles não agüentariam um segundo da vida na estufa, amigo. Aqui a chapa esquenta, tá ligado? Pois então... Acabei me estrepando. De tanto implicar, minha amiga se apaixonou perdidamente por um deles. Viviam se acenando, ou fazendo mímicas apaixonadas. De uma hora para outra eu me tornei um confidente. Meu peito ardia ao ouvi-la dirigir palavras melosas ao tal sanduichezinho. Ó injustiça! Tive que me afastar de minha rotunda paixão. Pior é que ela mal percebeu, tão atraída que estava pelo meu frio oponente. E foi à distância que vi o suplício terminar de forma dramática. Todo salgado feito ao meio-dia possui vida curtíssima. Essas pobres almas são vítimas de uma convenção alimentar mundana, conhecida como almoço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um gordo suado a devorou sem dó. Fechei os olhos para não ver a cena, enquanto os demais habitantes da estufa se alvoroçavam com a perda repentina. Horas depois, o “Romeu” afrescalhado de minha amada foi consumido por uma madame. Ele também não devia estar se sentindo bem, pois a madame começou a empolar ali mesmo, intoxicada pela amargura do sujeitinho. Depois dessa tragédia, procurei evitar enlaces amorosos. Fui além. Intencionalmente, me descuidei da aparência a fim de desencorajar qualquer investida feminina.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Minha posição não permite enxergar muita coisa. Apenas pessoas que transitam de um lado para o outro pela calçada. Nunca um tipo interessante. Também pudera. O meu boteco fica pessimamente localizado. Por aqui só passam putas e tipos grosseiros. E sempre encostam a maldita barriga no balcão. Não percebem o quanto isso dificulta minha única distração externa: observar o movimento do puteiro em frente. Nem se animem muito, meus amigos. Só tem bagaço. Aliás, ontem à noite, prestes a completar doze horas de vida, comecei a me identificar com uma delas. Não me entendam mal, por favor. A pobrezinha já tinha certa idade. Era rejeitada até mesmo por homens vulgares, de gostos duvidosos. Sim, acabei me identificando! Afinal, sou evitado por fregueses de péssima reputação alimentar. Ela pelo menos pode fumar um cigarrinho e se afogar em bebida barata... já eu fico aqui nessa escuridão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Opa, abriu! Nossa! Que dia lindo! Não é hora para lamentos. O fim está próximo e ninguém me ouve nesta choça. Tão logo saia a primeira fritada, darei adeus a esse mundo. Queria dedicar o sol dessa manhã a todos os amigos salgados com quem convivi. Todos engolidos e digeridos, quiçá excretados, ao longo dessas quase vinte e quatro horas. Um brinde a vocês! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto vontade de cantar. &lt;em&gt;Here comes the sun, tchutchururu, here comes the sun&lt;/em&gt;. Deus, essas salmonelas começam a afetar meu juízo. Por obséquio, joguem-me logo na lixeira. Não suporto mais ficar nesta estufa vazia, repleta de recordações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é esse aí que apareceu? Coitado. É tão velho que anda auxiliado por uma enfermeira. Aonde ela vai? Ao banheiro? Hehe. Eu não iria lá se fosse ela. Por que o velhote me encara dessa maneira? O que você quer? Você só pode estar de brincadeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois não, senhor?&lt;br /&gt;- Me vê esse croquetinho aqui, meu filho.&lt;br /&gt;- Vixe! Isso taí desde ontem. Péra um pouquinho que já vão sair os salgados novos.&lt;br /&gt;- Tem problema não, meu filho. Se vivi até hoje, não há de ser um croquetinho a me matar. Manda aí.&lt;br /&gt;- O senhor que sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito. O que este assassino vai fazer? Ele tá me pegando. Ih rapaz, ele tá falando sério mesmo. Vai me colocar na bandejinha e tudo. Não faça isso! Eu tenho uma população inteira de motivos para não ser servido. Pare! Não quero cometer um assassinato nos meus derradeiros momentos de vida. Seria uma mancha na minha trajetória. Malditos celerados! Tenho que evitar isto! Nem que seja meu último ato de nobreza.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Opa! Desculpa! Caiu no chão.&lt;br /&gt;- O danado parece que rolou sozinho...&lt;br /&gt;- Isso mesmo. O senhor também reparou?&lt;br /&gt;- Reparei que você é muito estabanado, meu filho.&lt;br /&gt;- Sinto muito. Este vai pro cachorro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-6072323509731150860?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/6072323509731150860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=6072323509731150860' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/6072323509731150860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/6072323509731150860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/08/eu-croquete.html' title='Eu, Croquete'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-4191373720063681285</id><published>2009-08-13T14:29:00.000-07:00</published><updated>2011-07-19T10:52:23.546-07:00</updated><title type='text'>O aniversário de Talitinha</title><content type='html'>Logo no primeiro dia de trabalho na produtora, o designer Tulio se espantou com a cor dos olhos de Talitinha. Tom violeta enfumaçado. Realmente um deslumbre. Além de linda, a pequenina era gentil e atenciosa. Todas as manhãs o cumprimentava com um sorriso, chamando-o pelo nome. Isto aquecia as manhãs friorentas do rapaz. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Apesar da Talitinha namorar um japonês viciado em games, Túlio tinha esperança de atrair a afeição da ninfeta. Era comum ela queixar-se, para quem quisesse ouvir, da indiferença do amado. Olhos como aqueles não podiam ser possuídos por um japa infantilóide, pensava. Era hora de vencer a timidez para desbancá-lo. A oportunidade parecia chegar naquela tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De costas em sua mesa na sala de criação, Túlio escutou Talitinha, faceira como ela só, lançar um convite sapeca para Davi e Ricardo, dois simpáticos roteiristas, adeptos do humor pasteurizado. Sujeitos que falam bastante, mesmo sem ter qualquer assunto em mente, e riem das próprias piadas. Enfim, caras de prestígio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meninos, vou comemorar meu aniversário hoje na Augusta, nove e meia. Quero ver vocês lá. – Os olhinhos faiscavam como nunca.&lt;br /&gt;- Na Augusta?! Tá mal intencionada né!? Onde vai ser? &lt;br /&gt;- Então... Queria uma balada diferente, sabe!? Nada dessas festinhas com DJ, patricinha, caretice...  Ai to cansada de tudo sempre igual - Talitinha choramingava graciosamente - Marquei com uns amigos no Coco Bongo. É um daqueles puteirinhos de lá. Vai ser doido! Uma amiga minha comemorou aniversário num lugar assim e disse que a galera rachou o bico à noite inteira.&lt;br /&gt;Túlio ficou paralisado, enquanto Ricardo e Davi pareciam desconcertados, mas só por alguns instantes.&lt;br /&gt;- Hahahaha... Que isso, Ta? Zuada essa sua idéia! Minha religião não permite, ok? – Fez cu doce Davi.&lt;br /&gt;Ricardo foi direto ao ponto. Como faria Túlio, se estivesse participando da conversa:&lt;br /&gt;- Que seu namorado acha dessa ideia?&lt;br /&gt;- Ai, seus caretões! Ele nem vai. O Ken detesta meus amigos. Vou jantar com ele e com a minha família antes. Gente, não é para espalhar, ok? Tô chamando só aqueles que eu sei que vão meeeesmo.&lt;br /&gt;- E você acha que a gente tem cara de putanheiro né? – Davi insistia no cu doce.&lt;br /&gt;Cheio de ansiedade, Túlio ouviu mais algumas gracinhas dos amigos, respostas com falso encabulamento de Talitinha e por fim a menina despediu-se sem convidá-lo para a farra. O rapaz encarou os amigos sem disfarçar a decepção. Nele, este desalento adquiria certa comicidade, logo percebida por Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que cara é essa? Tá com fome? Vamos lá na padaria. &lt;br /&gt;Conversa vem, conversa vai, Túlio enfim pôde exprimir seu lamento. Mastigando amargamente um ovo cozido empanado, afirmou que não iria comparecer à festa.&lt;br /&gt;- Vocês viram que eu nem fui convidado. Passou por mim como se eu fosse um fantasma. O que eu vou fazer lá!? – argumentou com os olhos cheios de lágrimas.&lt;br /&gt;- Larga de ser bundão, Túlio. Ela pediu pra falar com os mais chegados. Você também pode ir. A não ser que seja crente. Aí é outra história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Túlio resignou-se. Não teve o prazer de ser convidado por Talitinha, mas não podia deixar de vê-la radiante naquele dia especial. Pensou nos olhinhos violetas faiscantes. Recuperado da esnobada, Túlio agora buscava nos amigos um pouco mais de estímulo.&lt;br /&gt;- Que horas vocês vão pra lá?&lt;br /&gt;- Não sei. Vou sair daqui, passar em casa, tomar um banho e vou. – garantiu Davi.&lt;br /&gt;- Também vou fazer isso. – completou Ricardo, aparentando desinteresse.&lt;br /&gt;- Bom, eu tenho que terminar umas coisas. Se ficar tarde eu vou direto. Vocês vão com certeza, né? &lt;br /&gt;A insegurança de Túlio era minimizada por Davi e Ricardo, que admiravam nele o lado profissional, mas socialmente consideravam-no inferior. Como uma criança medrosa. De fato, o rapaz não fazia questão de dissimular a própria insegurança. Era constrangedora sua transparência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove e quinze da noite. Túlio conformou-se em ir direto, sem banho e sem a carona dos amigos. Não queria perder mais tempo. No caminho, pensava num gracejo ou frase de impacto para dizer a Talitinha quando a visse. Um presente? Não. Seria demais para quem sequer fora convidado formalmente.&lt;br /&gt;O pacato rapaz não estava habituado a programas mais sórdidos. No máximo, um dos insossos barzinhos próximos à produtora.  A sujeira da Rua Augusta, assim como os tipos extravagantes que a habitam, impressionaram Túlio. Já não sentia confiança para gracejar. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Túlio mirava os letreiros em neón buscando o local indicado por Talitinha. Enquanto isso, plantados nas portas dos puteiros, nordestinos de rostos encovados, metidos em ternos baratos, lhe faziam propostas indecorosas: “E aí meu, tá a fim de enfornar o robalo?” “Dez reais, duas brejas e um bando de safadas doidas para dar o chibiu! Topa não, excelência?” Por fim, Túlio achou o pardieiro indicado. Tão banal como os outros. Pior, na placa onde deveria se ler Coco Bongo, só se lia Coco go, pois algumas luzes do letreiro estavam queimadas. Talitinha perdeu mesmo o juízo, pensava. A recepção foi semelhante às anteriores: “Bucetada na cara, campeão?”. A proposta afugentou o rapaz, que seguiu em frente, sem coragem de entrar no pardieiro. Surpreso com a própria atitude, desconfiou ser ele tão careta e patético como o namorado japa, que Talitinha dispensou para celebrar em meio a cafetões, traficantes, putas e “bucetadas na cara”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzou mais duas vezes com o porteiro do Coco Bongo até finalmente resolver entrar. &lt;br /&gt;- Ô meu amigo, entra logo. Tenha medo não. Parece até que é tu quem vai dar o rabo. Assina a comanda com a tia ali e é só correr para o abraço.&lt;br /&gt;Ainda pouco convencido, Túlio foi lançado para dentro. Desnorteado com a penumbra e o som altíssimo, o rapaz descobriu que ao deixar quinze reais na porta, tinha direito a duas Bavarias chocas, servidas de trás do balcão por um digno senhor de bigodes brancos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostado no balcão, Túlio tentou avistar alguém do trabalho. Nada. Apenas gatos pingados desconhecidos. Uma música cafona berrava no alto falante. Passou pela sua cabeça a possibilidade de tudo aquilo ser um trote. Ninguém chegaria ali e ele voltaria para casa com cara de idiota. Decidiu bebericar sua Bavaria e aguardar um pouco. Não deu trela para o assédio das putas flácidas que cruzavam o ambiente. Em seu campo de visão, só o velho de bigodes, encarando-o tristemente. Cada minuto era um tormento. &lt;br /&gt;Dois caras sentaram-se ao lado de Túlio. Eram até simpáticos. Queriam fazê-lo participar da conversa. Túlio sorriu amarelo e continuou a assistir o velho enxugar taças. Mesmo assim eles se apresentaram. Um deles chamava-se Robson e o outro era seu primo Claudemir. A simpatia da dupla acabou vencendo a resistência do rapaz. Após cinco cervejas, os três conversavam animadamente sobre sacanagem e futebol. Túlio falava pouco, mas conseguia se distrair.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Entretidos pela conversa, eles não notaram a entrada de um pequeno e animado grupo. Quando Túlio olhou para o fundo do bar, Talitinha estava se sentando em uma mesa, acompanhada por três caras de trejeitos homossexuais, e uma menina de cabelos preto e roxo. Nenhum rosto conhecido. Nem sinal de Davi e Ricardo. O rapaz pretendia juntar-se a eles, porém sentiu uma súbita covardia. O grupo estava plenamente integrado. A chegada de um novo elemento, pacato e certinho como ele, traria desconforto geral, presumiu. A paranóia o conteve. Ao virar-se novamente para o balcão, tentando não ser notado por Talitinha, deparou-se com três copos de cachaça à sua frente.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Vira aí, mano. Cortesia nossa! – Oferecia o sorridente Robson.&lt;br /&gt;- Ih, vocês viram lá no fundo a dondoquinha  toda se achando? Novinha assim e já colando o velcro. Mas eu passo a vara mesmo assim, mano! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Túlio incomodava-se com os comentários sobre seu xodó, mas a preocupação maior era não ser visto. A pinga começou a subir a cabeça. Foi então que Robson introduziu uma nova participante na conversa.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Aí, chegado, essa aqui é a Glorinha. Hehehe! Ela tem nome de professorinha de quarta série, tá ligado? Esse é o meu amigo... Como cê chama mesmo, mano?&lt;br /&gt;- Túlio.&lt;br /&gt;- Oi, Túlio. Primeira vez aqui? – perguntou Glorinha, toda dengosa. &lt;br /&gt;Túlio não entendeu bem a pergunta. Um pouco pelo barulho e um pouco em função de seu estado alcoólico.&lt;br /&gt;- Não, não. Eu já transei antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois amigos começaram a gargalhar. Glorinha, timidamente, mostrou um dentinho podre. Túlio, com medo de chamar a atenção de Talitinha, afundou-se dentro do casaco. Mas nem era preciso, pois a aniversariante e sua turma extravagante gritavam e gargalhavam sem notar o universo ao redor. O velho do balcão resmungava solitariamente contra a presença de “viados” em um ambiente “sadio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixa de ser trouxa, Túlio. Ninguém aqui quer saber das tuas trepadas. O assunto é a Glorinha! – Robson envolveu a puta com os braços - Não é meu biju?! To precisando de umas lições! Quer ser minha professorinha? &lt;br /&gt;- Diz aí quanto é o showzinho? – perguntou Claudemir, o mais objetivo dos três.&lt;br /&gt;- Não faço show. Se quiser vamos lá pro quarto. Oitenta reais a hora, gato.&lt;br /&gt;- Ahh... Mas eu preciso ver o material primeiro.&lt;br /&gt;Glorinha hesitou um pouco. Porém o movimento estava fraquíssimo e ela acabou topando.&lt;br /&gt;- Ok meninos, mas depois quero fazer o serviço completo. Eu danço pra vocês por trinta. Sentem nas cadeiras ali atrás que eu já volto – Retirou-se apressada.&lt;br /&gt;- Opa! Vamos lá!&lt;br /&gt;Robson e Claudemir entraram por uma porta lateral, logo na entrada do bar. Era um ambiente privativo. Túlio, indiferente às negociações, foi puxado pelos dois. No trajeto, pode olhar novamente para a mesa de Talitinha e gelou ao vê-la encarando-o. Mas daquela distância, e em meio à penumbra, era pouco provável que fosse reconhecido, tranqulizou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sentado entre Robson e Claudemir, Túlio demorou a entender que Glorinha dançaria sem roupa para eles.&lt;br /&gt;- Entendi. E eu posso encostar a mão?&lt;br /&gt;- Claro, porra! Isso aqui não é o balé do Municipal! Você vai ver logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glorinha entrou trajando calcinha e sutiã pretos. O corpo inteiro lambuzado de um óleo com fragrância de uva. A morena tinha pernas longas e finas, mas era bem fornida onde interessava: na bunda. A luz fraca ajudava a delinear as reluzentes curvas de Glorinha.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;- Aí, meu velho! É disso que eu to falando. Isso é que é show de verdade. &lt;br /&gt;Começou a tocar uma balada do Red Hot Chili Peppers. Devia ser a música de trabalho de Glorinha. Túlio sentia-se entusiasmado com a possibilidade de acariciar o corpo da morena. Ela iniciou a dança roçando a bunda nos joelhos de Claudemir, que envolveu os dois peitos da puta com as mãos. Ela desvencilhou-se para tirar o sutiã e a calcinha. Túlio ouvia Robson e seu primo rirem e gritarem asneiras, mas não conseguia distinguir o que diziam. Estava com os olhos vidrados no corpo à sua frente. Após se esfregar em Robson, Glorinha voltou a insinuar-se para Claudemir. Túlio sentiu-se ignorado pela puta, que não lhe dava chance de tirar uma lasca sequer. Quando ela voltou ao centro para, de costas, abaixar o tórax até tocar os joelhos com as mãos, Túlio perdeu as estribeiras. Avançou como um cão faminto em direção à suculenta bunda. Mas aconteceu uma cena grotesca. Ao tentar puxá-la pela cintura, a mão do rapaz escorregou para entre as oleosas nádegas. Glorinha no susto virou-se, e a unha do dedo médio do rapaz cravou em uma área bastante sensível da puta. O grito emitido foi de dor e revolta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aiii! Enfiou o dedo no meu cu!? Faz isso na sua mãe, filho da puta! – Enquanto xingava, Glorinha dava safanões sobre a cabeça de Túlio, que defendia-se como podia. Não eram estas as carícias que ele esperava obter da moça.&lt;br /&gt;- Calma, calma, foi sem querer, minha flor! – De nada adiantaram os panos quentes de Robson. &lt;br /&gt;Glorinha estava muito irritada e ficou ainda mais quando Túlio tentou se explicar:&lt;br /&gt;- Esta minha unha aqui tá um pouco grande, eu uso pra tocar violão e... – O rapaz nem conseguiu completar.&lt;br /&gt;O segurança já pegou-o pelos ombros para expulsá-lo. Túlio ainda ouviu uma última ofensa de Glorinha:&lt;br /&gt;- Esse aí não gosta de mulher! Nem sei o que veio fazer aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três rapazes foram levados ao caixa para quitarem as contas e saírem ilesos de uma confusão maior. Robson e Claudemir não pareciam contrariados. Pelo contrário, riam da situação, enquanto Túlio notava, aliviado, que Talitinha havia ido embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nossa, meu! Corta essa unha antes de enfiar o dedo em alguém, ok? Senão você vai acabar pagando só pra levar porrada. Hahahahaha! – caçoava Robson. &lt;br /&gt;- Será que o Zé do Caixão já fez fio terra em alguém? - Indagou Claudemir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expulsos do Coco Bongo, Robson e Claudemir viraram as costas para Túlio e se enfurnaram no puteiro vizinho. Sem vontade de prolongar aquela jornada deprimente, o infeliz designer manteve-se pensativo por uns instantes. Parado na calçada, ouviu chamarem seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Túlio!?&lt;br /&gt;- Ta? Oi... Tudo bem?&lt;br /&gt;- O que você ta fazendo aqui? Vi você sair daí de dentro.&lt;br /&gt;Túlio atrapalhou-se com a resposta:&lt;br /&gt;- Eu... Eu... Eu costumo vir aqui... à noite. E você? &lt;br /&gt;- Vocêêê?? Nossa, nem parece... – Passou pelo rosto de Talitinha uma sombra de decepção, que Túlio notou – Menino, eu tava aí dentro com uns amigos. Mas achei muito chato. Pensei que fosse mais animado. Aliás, eu tenho que ir, o pessoal tá me esperando. Juízo hein, Túlio!? Não faça besteiras!&lt;br /&gt;- Eu... Eu...&lt;br /&gt;- Ih, fica tranqüilo! Não vou espalhar que você freqüenta esse lugar. Se encontrar o Davi e o Ricardo, diz que eles são uns furões. Beijinho, tchau! – A garota atravessou a rua correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Túlio se sentia humilhado. Para fugir do ridículo de ter ido a uma festa a qual não fora convidado, acabou caindo em uma situação ainda mais patética. E a Talitinha nem mencionou que comemorava seu aniversário. Ela não queria mesmo a presença dele, pensou. Na certa o julgava santo demais para aquele ambiente, concluiu por fim.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Bêbado, envergonhado, e com o estômago ardendo, Túlio procurou por algum dinheiro no bolso. Percebeu que as ofensas de Glorinha custaram-lhe o montante reservado para o ônibus da volta. Juntando moedas deu para comprar um croquete no boteco. Constatou que o quitude estava azedo. Não esperava outra coisa mesmo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-4191373720063681285?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/4191373720063681285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=4191373720063681285' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4191373720063681285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4191373720063681285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/08/o-aniversario-de-talitinha.html' title='O aniversário de Talitinha'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-7227124658879441474</id><published>2009-07-03T11:29:00.000-07:00</published><updated>2011-03-23T09:49:30.347-07:00</updated><title type='text'>Honra</title><content type='html'>Na placa lia-se: Pastel de Feira da Elvira, delícia da zona leste! Ficava no alto de um trailer triste, estacionado em uma praça coberta de lixo. &lt;br /&gt;Três amigos, de uns vinte e poucos de idade, chegavam famintos à frente do balcão. Os dois mais novos estavam bastante excitados, enquanto o maior e mais velho olhava ao redor preocupado. Dona Elvira atendeu com doçura.&lt;br /&gt;- Oi, meninos! Pastel e caldo de cana?&lt;br /&gt;- Vê um de pizza, tia – pediu Gilvan, o grandão desconfiado.&lt;br /&gt;- Pra mim um de carne – escolheu Paulo César, que ostentava &lt;br /&gt;um topete salpicado de dourado. &lt;br /&gt;- Eu quero de palmito – engrossou a voz James, o menor, &lt;br /&gt;mais inquieto, e portador de um pequeno pacote embrulhado com jornal.&lt;br /&gt;Gilvan e Paulo esqueceram a tensão por alguns instantes e se &lt;br /&gt;entreolharam divertidos.&lt;br /&gt;-   Meu, olha que bichona... vê se homem de verdade pede pastel de palmito – provocou Paulo.&lt;br /&gt;James, suscetível como era, não deixou barato.&lt;br /&gt;- Então tá, PC!? Quem era a bichona que tava se borrando agora &lt;br /&gt;há pouco? Pensa que eu não percebi? Tô mentindo, Gilvan? &lt;br /&gt;Gilvan não dava bola para as provocações dos garotos. Preferia observar apreensivo a aproximação de dois PMs. Um deles tinha aparência estúpida, compensada por músculos intimidantes. Já o outro, calvo e de semblante enérgico, suscitava recordações desagradáveis no rapaz. O trauma de dormir na prisão ainda estava vivo. &lt;br /&gt;O PM calvo, morador do bairro, tipo correto e metido a guardião de sua comunidade, retribuiu o olhar desconfiado de Gilvan. Quis deixar claro que o reconhecia. Discretamente, ele alertou o colega de farda. &lt;br /&gt;-   Aquele é ex-detento. Tem que ficar sempre de olho &lt;br /&gt;O PM forte não deu bola. Preferiu estudar o comportamento de James e PC, que comiam pastel e papeavam desembaraçadamente. &lt;br /&gt;Gilvan voltou-se para os companheiros. A tensão o fazia suar na testa. O comportamento espalhafatoso dos colegas só piorava as coisas.&lt;br /&gt;- Se não fosse eu, não passávamos o cara, mano. Sabe por &lt;br /&gt;quê? Porque eu sou novo, mas tenho sangue nos olhos! – Gabava-se James, para terror dos dois amigos.&lt;br /&gt;- Cala a boca, moleque! – Sussurrou Paulo, já ciente dos olhares &lt;br /&gt;incômodos.&lt;br /&gt;Os policiais fitavam Gilvan e seus amigos ostensivamente. James enfim percebeu. Então cortou o discurso abruptamente, levou o copo de garapa à boca e o virou de uma só vez. A perturbação dos três ficou evidente.&lt;br /&gt;- Estes caras aprontaram. – comentou consigo mesmo o PM calvo, enquanto mastigava calmamente um pastel de  calabreza.&lt;br /&gt;Gilvan se atrapalhou um pouco e deixou cair metade de seu pastel no chão. Na mesma hora tratou de apressar os outros.&lt;br /&gt;- Acabaram aí, né? Vambora. &lt;br /&gt;PC e James assentiram e pagaram Dona Elvira. Ao notar, estarrecido, que James deixara o pequeno pacote repousando sobre o balcão, Gilvan dirigiu-lhe um olhar furioso. Prontamente, o caçula do trio pegou o pacote e saiu andando rápido, acompanhado pelos amigos.&lt;br /&gt;      O policial calvo cutucou o colega, que permanecia indiferente à partida dos três.&lt;br /&gt;- Vamos seguir os moleques, Tavares.&lt;br /&gt;- Esquenta não, tenente. Deixa ir... vamos comer mais um.&lt;br /&gt;- Vem comendo.&lt;br /&gt;O subordinado, não vendo alternativa, deixou o dinheiro no balcão, sorriu para Dona Elvira e apressou-se.&lt;br /&gt;Os rapazes discutiam. Gilvan era o mais nervoso. Queria encher James de pancada, mas no íntimo, considerava-o isento de culpa. Aquela situação poderia ter sido evitada, pensava. Pois não precisava de dois cúmplices. A covardia o levou a cooptar os amigos para a missão. Achou que a ajuda deles agilizaria o processo. Serviço de equipe: limpo e rápido. Agora, Gilvan olhava para trás e não via ninguém. Ia recuperando a calma. Porém, o alívio durou pouco, pois sentiu o sangue gelar quando os policiais apontaram na esquina. &lt;br /&gt;-  Podem andar sem medo. Não tem treta, galera. É só intimidação. – Instruiu o pouco convicto líder do grupo.&lt;br /&gt;- Não tem treta é o caralho, mano! O pacote tá comigo! O que eu &lt;br /&gt;faço com isto? Engulo? – Vociferou James.&lt;br /&gt;- Vamos ter que correr, Gilvan! &lt;br /&gt;- Espera! &lt;br /&gt;Gilvan perdeu o comando. No fim da rua, PC correu para um lado e James atirou o pacote no lixo antes de zarpar pela direção contrária.&lt;br /&gt;- No lixo não, animal! – Suplicou o desesperado líder.&lt;br /&gt;Os policiais aceleraram o passo. Gilvan hesitou em pegar o pacote na lixeira, aturdido pela possibilidade de chamar a atenção dos perseguidores. Optou por correr sem olhar para trás, ciente da roubada em que se metera. Ao cruzar a avenida, duas quadras à frente, sentia-se angustiado pelo arrependimento. Inconformado com a burrice feita. Os policiais abandonaram a perseguição, mas fatalmente vasculhariam o lixo. Entregar de bandeja uma prova como aquela selaria a tragédia dos três, previa.&lt;br /&gt;- Abre logo, Tavares! Não é para ficar cheirando!&lt;br /&gt;- Calma, tenente, pode não ser este o pacote...&lt;br /&gt;- Claro que é, porra! Pensa que eu não reparei lá na pastelaria?&lt;br /&gt;- Tá cheio de durex colado no papel. Peraí.... Pronto! Olha aí, os caras se complicam por causa de uma mixaria de bagu... Epa!&lt;br /&gt;- Que isso?&lt;br /&gt;- Sei lá... não é bagulho. Parece osso para cachorro ou...&lt;br /&gt;- Dois dedos!&lt;br /&gt;- Hã?&lt;br /&gt;- É sim, meu! Olha a unha preta! Tem até um anelzinho num deles. Não falei que eles tinham feito merda? Vamos cercar o bairro, senão eles desaparecem.&lt;br /&gt;- Vou acionar as viaturas. Será que tem defunto?&lt;br /&gt;- Porra, Tavares! Eles acharam isto na rua, por acaso? Chama logo aí!&lt;br /&gt;PC e James estavam em casa, preparando a fuga. Enchiam as respectivas mochilas com pertences quando a polícia chegou e os levou à delegacia do bairro. Gilvan não fora encontrado. O tenente previa dificuldades para capturá-lo.&lt;br /&gt;- Estes aí são peixes miúdos. Sem malandragem. O grandão é fichado. Liderou a gangue com certeza. Vai resistir, podem escrever.&lt;br /&gt;Para surpresa do tenente, dos policiais e dos companheiros de fiasco, Gilvan se apresentou espontaneamente à delegacia pouco tempo depois. Nada disse ao entrar na sala do delegado. Simplesmente abaixou a cabeça como um condenado que aguarda a sentença. Era a expressão absoluta da derrota. Tal postura indignou os amigos, até então apegados à experiência e maturidade do líder como pontos à favor. Os dois mais jovens estavam firmes no intuito de negar qualquer evidência sobre o delito. Foram separados em três salas. O tenente calvo ficou por conta de Gilvan.&lt;br /&gt;PC e James sofreram com a truculência dos inquisidores. Apanharam , tiveram as famílias ameaçadas e acabaram contanto o que sabiam. Mas o detalhe fundamental, só Gilvan poderia revelar.&lt;br /&gt;O tenente calvo empreendeu um método menos agressivo. Sabia do trauma de Gilvan. Buscou ganhar-lhe a confiança. Descobriu o nome da vítima: Tadeu Gonçalves Pereira, assassinado a socos, chutes e pauladas. &lt;br /&gt;- Esse cara só arrumava confusão. Devia saber que pra poder mexer com o que é dos outros, e ainda tirar onda, tinha que se garantir. Ele vivia dando mole por aí bêbado, doidão, desarmado... tretou com quem não devia, desrespeitou a mina de um cara que não deixa passar.&lt;br /&gt;- E aí vocês carimbaram ele. Mas e os dedos?&lt;br /&gt;- Ah, isso aí é coisa de honra. Aquele dedinho com o anel vai virar &lt;br /&gt;troféu. Pra impor respeito, tenente.&lt;br /&gt;- Mas e o outro dedo, caralho?&lt;br /&gt;- Primeiro arrancamos o errado, quando vimos, tivemos que cerrar o certo para levar junto.&lt;br /&gt;- Entendi, Gilvan. Fez bem em contar. Fica tranqüilo. Você tá &lt;br /&gt;seguro aqui. Só me fala o nome do cara.&lt;br /&gt;- Tenente. Eu me fudi uma vez, fui preso, minha mãe adoeceu por &lt;br /&gt;causa disso. Sei que ela não vai me receber de volta se eu sair daqui de novo. Coloquei o PC e o James na canoa furada... Depois de tudo, o que eu posso dizer? Da minha boca não sai mais nenhum nome. Também tenho minha honra. &lt;br /&gt;- Há! Vai tomar no cu, seu bosta! Os quatro tão nessa. E o figurão é o que tá mais fudido. – o tenente esforçou-se para manter a calma -  Vamos fazer o seguinte, me leva até o terreno onde vocês desovaram o cara, depois conversamos melhor.&lt;br /&gt;A noite daquele 25 de maio era hostil. Ventos gelados e baixa umidade castigavam o trio que invadia um terreno baldio por um buraco aberto no muro.&lt;br /&gt;O PM Jucilei, encarregado de cavar, cravou a pá no local indicado por Gilvan. Nem foi preciso ir muito fundo para achar o corpo. O homem da pá deteve-se por um instante, deixando o defunto parcialmente enterrado. Inconformado com o silêncio do jovem homicida, o tenente apelava para ameaças. &lt;br /&gt;- Você escolhe: Fala o nome do cara ou vai dormir junto com esse infeliz aí.&lt;br /&gt;     Diante de outra negativa de Gilvan, o tenente socou-lhe as costas com brutalidade. O rapaz foi parar sobre o cadáver semi enterrado. Tentou levantar-se e levou mais um pisão. Não levantou novamente. Ficou deitado sobre o corpo da vítima. O PM Jucilei, habituado aos métodos mais sutis do tenente, encarou a cena surpreendido. O nojo que sentia do odor exalado pelo morto chamava-lhe menos a atenção que a postura truculenta do sempre exemplar companheiro de farda.&lt;br /&gt;- Estava tentando te dar uma chance. Sei que você só entra nessas porque é burro. Aprende uma coisa: miserável não precisa de honra! Sobreviver já é lucro. &lt;br /&gt;O tenente não abriu a boca no retorno à delegacia. O cheiro de gás metano, entranhado nas roupas de Gilvan, empesteava o interior da viatura. Jucilei dirigia sem disfarçar a careta repulsiva. Próximo à delegacia, não agüentou e vomitou pela janela, com o carro ainda andando.&lt;br /&gt;Gilvan foi jogado em uma cela. Os colegas de infortúnio tiveram destino semelhante, porém estariam de volta às suas casas em período mais breve que o líder do bando. &lt;br /&gt;O fedor de morte tomou conta da prisão e martirizou ainda mais os detentos. Isso, pelo menos, garantiu o isolamento desejado por Gilvan. Algo cristalino tomava forma na consciência do rapaz. Sentia-se serenamente digno por ter confessado. Esta resolução purificava-lhe, ao menos por uma noite. Difícil seria buscar motivação para sobreviver às próximas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-7227124658879441474?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/7227124658879441474/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=7227124658879441474' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7227124658879441474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7227124658879441474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/07/honra.html' title='Honra'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-3979846550507296428</id><published>2009-05-06T10:29:00.000-07:00</published><updated>2011-09-08T10:49:07.050-07:00</updated><title type='text'>Alvorada dos Lordes</title><content type='html'>A confusão teve início quando a Fonseca Empreedimentos Imobiliários ergueu o luxuoso condomínio Alvorada dos Lordes. Era o pulo do gato da emergente empresa. Os ricaços interessados em conforto, lazer, segurança, e outros clichês habitacionais, ficaram logo entusiasmados. Várias famílias arremataram seus imóveis dos sonhos ainda na planta. Entre os compradores estavam muitos freqüentadores de um mesmo círculo social; portanto, tinham relações amistosas, de admiração mútua, ou inveja mútua, a familiarizá-los. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das felizes compradoras, a solitária socialite Geórgia Maldonado, estava exultante com a nova morada. Geórgia não precisava, e não queria, trabalhar. Tinha alma de artista, diziam seus bajuladores. O marido, executivo de multinacional, lobista, entre outras atividades nebulosas, vivia a viajar. Foi no Alvorada que a dócil madame reaqueceu suas amizades. Gostava de receber para o chá ou visitar outras influentes matriarcas. Comentavam sobre cultura, casamentos malfadados, fortunas dilapidadas, violência urbana. Apenas um boletim geral sem profundidade alguma. Afinal, não desejavam se exaltar, apenas ouvir o som das próprias vozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados alguns meses, Geórgia, auto proclamada "artesã do lar", decidiu empreender a primeira reforma. Ou "intervenção artística", como ela mesma definia. Na verdade, não considerava sua sala ampla o bastante. Sentia-se um pouco “emparedada”. Queria derrubar a parede do escritório, jamais usado pelo marido, para aumentar o espaço da sala. A missão foi confiada ao pedreiro Lindomar, "um verdadeiro Midas", conhecido entre as famílias do pedaço. Após um rápido estudo do local, o pedreiro tratou de voltar na manhã seguinte, com as ferramentas em mãos, pronto para um dinheirinho fácil.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Uma marretada, duas, três... e foi ruindo a grossa parede. Mas tinha um negócio estranho ali no meio. O pedreiro ficou lívido, desnorteou-se, não podia continuar o serviço, foi chamar a madame. Para assustar Lindomar daquele jeito, boa coisa não podia ser. Antes de mostrar o achado, gastou algum tempo prevenindo Geórgia sobre a visão que teria. Impossível não se chocar com o pequenino corpo, quase intacto, mumificado por uma camada de reboco. A pele adquiriu o tom cinzento de uma estátua. Ali estava uma menina de no máximo nove anos. Lindomar se benzeu, tirou o boné em respeito, enquanto a madame apenas arqueou uma das sobrancelhas, aparentando mais descontentamento do que susto. Nesse dia começaram os transtornos de Geórgia. Ela até tentou ser prática ao chamar os bombeiros de imediato. Naturalmente, a situação foi além. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo o tamanho da merda, os bombeiros acionaram a polícia. Após averiguação, dois policiais interditaram a obra e chamaram a perícia. Bastou isto para indispor a proprietária com as autoridades. Desejava apenas que levassem dali a “coisa” para Lindomar continuar a derrubar a parede. Depois de resistir, a madame acabou colaborando. Coitada, ao tentar evitar um escândalo, acabou fazendo exatamente o inverso com sua falta de calma. O entra e sai no apartamento já gerava reações calorosas dos outros condôminos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após dormir em um hotel, lá estava ela, na delegacia, prestando esclarecimentos. Irritadíssima, ignorava as perguntas e afirmava não ter a mínima idéia de como a menina entrara ali. O delegado, muito respeitoso, a tranqüilizou. Não desconfiava dela, afinal, presumia que o crime fora praticado por um ou mais operários envolvidos na construção do prédio. O encarregado saboreava cada detalhe do caso, antevendo a fama que a sinistra ocorrência poderia lhe render.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao Alvorada, a madame se deparou com alguns moradores reunidos no saguão. Logo a cercaram. Uns se sentiam no direito de fazer qualquer pergunta, outros se solidarizavam de forma pouco convincente, enquanto algumas amigas tentavam, inutilmente, protegê-la do assédio. O rebuliço chamou a atenção dos repórteres de plantão à frente do prédio. Eles também a cercaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora tem idéia de como aquela criança foi parar lá?&lt;br /&gt;- A senhora pretende mudar-se para facilitar as investigações?&lt;br /&gt;Provocada, a madame se enfureceu:&lt;br /&gt;- Esta é a minha casa! Não me importunem! Os intrusos aqui são&lt;br /&gt;vocês!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os flashes foram disparados no momento de descontrole da madame. Dizem que a socialite é um doce de pessoa, mas a tensão a deixa fora de si. Aos pontapés, furou o bloqueio e entrou no elevador. Na porta de seu apartamento, um novo ataque de fúria. Uma fita isolava a área, não permitindo a aproximação. Geórgia arrancou a fita, enquanto dirigia impropérios aos quatro cantos, e foi entrando. O policial em guarda ameaçou detê-la, mas conteve-se ao perceber de quem se tratava. Rapidamente, dois peritos a abordaram com toda a delicadeza possível. Disseram que o trabalho deles se encerrara. O corpo fora removido para um laboratório. Naquele momento, segundo eles, a identidade da criança já era conhecida. A madame não se acalmou com as explicações. Só pensava em retomar sua calma rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não quero saber quem é ou quem foi, só peço que desocupem minha&lt;br /&gt;casa imediatamente! Onde estão meus ajudantes? Judite! Alencar!&lt;br /&gt;- Eles foram dispensados, senhora... não podiam ficar aqui&lt;br /&gt;enquanto...&lt;br /&gt;- Mas o que é isto?! Eu já dei folga para eles na semana passada. Quem vocês pensam que são para determinar as regras de funcionamento de minha casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os agentes da polícia se entreolharam desanimados. Naquela altura a mídia já ligara os pontos, então decidiram abrir o jogo. A suspeita deles racaía sobre uma série de desaparecimentos ocorridos alguns meses antes. Onze crianças de uma comunidade pobre vizinha sumiram sem deixar vestígios. A polícia acreditava que o corpo achado pertencia a uma delas. Geórgia continuava indiferente. Aí veio a parte difícil para ela: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Veja bem, senhora, trabalhamos com a possibilidade de outros corpos estarem emparedados neste imóvel. Isso significa interdição total. Lamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jornais do dia seguinte destacavam o caso. A menina encontrada, Marcilene dos Santos, de nove anos, era mesmo uma das crianças procuradas. O laudo indicou que a pequena sofrera estupro antes de ser asfixiada. A indignação de Geórgia também mereceu destaque. Foi noticiada a recusa dela em deixar o apartamento após a interdição do local. para constrangimento geral, a polícia precisou removê-la à força, acrescentavam alguns veículos. De saída do imóvel, a madame revelou a alguns repórteres que procuraria um advogado para ajudá-la a combater o “abuso policial”. A intensão de dificultar as investigações arrasou com a reputação de Geórgia junto à opinião pública, principalmente entre a população de baixa renda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns jornais popularescos estamparam insinuações grosseiras sobre a socialite. Um deles continha a manchete apelativa: O POVO versus GEÓRGIA MALDONADO, ao lado da foto da mãe de Marcilene, bastante abatida. Na matéria, a triste senhora convocava outras mães como ela, saudosas de seus filhos desaparecidos, a lutar, apesar de "gente poderosa" tentar abafar o caso. Dali em diante, Geórgia passou a ser evitada por todas as famílias do Alvorada. No mesmo dia, outro tablóide foi além. Publicou uma montagem grotesca da madame, sentada em um trono de ossos, sob a alcunha de “Madame Morte do Alvorada”. Apesar de nenhum deles acusá-la, ou sequer suspeitar do envolvimento dela, a tratavam como cúmplice do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo, Geórgia pouco se intimidou com os comentários. Todos os dias tentava invadir seu próprio apartamento a fim de expulsar policiais e impedir na marra qualquer dano. Esforço em vão. Uma semana depois, Geórgia sequer conseguia entrar com seu carro na rua. Mães, parentes e amigos dos desaparecidos, além de repórteres, curiosos, vendedores ambulantes e populares de toda espécie faziam vigília diante do Alvorada. A madame era obstinada, mas preservava algum juízo. Não pisou mais lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este período foi difícil também para os outros moradores do condomínio. As famílias, que se mudaram para lá motivadas pela tranqüilidade e o conforto, agora só pensavam em procurar um novo lar. Aos investidores, que compraram imóveis a fim de capitalizações futuras, restou assistir atônitos à enorme desvalorização de seus apartamentos. Ninguém mais se convidava para o chá. As janelas viviam fechadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Construtora Fonseca Empreendimentos Imobiliários passou a sofrer com todo tipo de suspeita. A princípio, a empresa foi acusada pela população, arbitrariamente é claro, de ter contratado assassinos para realizar a obra. Isso não chegava a ser uma acusação séria. Mais tarde, porém, brotaram denúncias concretas contra os sócios da Fonseca. Todos estavam envolvidos em licitações fraudulentas, superfaturamento, entre outras atividades corruptas. Foi o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem experimentava um sabor doce nessa história eram os policiais. Da noite para o dia, a comunidade carente que sempre os confrontou passou a aplaudir a iniciativa de investigar os envolvidos na obra, e de buscar dentro do Alvorada os corpos das crianças. Aliás, como esperado, só no apartamento de Geórgia foram achados mais três cadáveres emparedados: Um menino e duas meninas, também estuprados antes de morrerem. A notícia trouxe pânico para os condôminos, temerosos pela integridade de seus lares. O povão ficou inflamado. Queriam justiça, suas crianças de volta. A polícia, farejando violência, formou um cordão para proteger os moradores do edifício. Contudo, os demais apartamentos não escaparam da interdição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa época que o marido de Geórgia chegou da Europa. Discreto, tratou de providenciar um refúgio para ele e a mulher. Alugou um apartamento, bem menor e mais modesto. A grana pesada gasta com a compra do antigo imóvel dos sonhos, aliada ao efeito demolidor da crise financeira do momento, não deixou outra opção. A esposa resistiu, entrou em depressão, e acabou vendo seu oásis de tranquilidade se desmanchar feito miragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Alvorada tinha se transformado em um grande e escandaloso mausoléu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-3979846550507296428?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/3979846550507296428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=3979846550507296428' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/3979846550507296428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/3979846550507296428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/05/alvorada-dos-lordes.html' title='Alvorada dos Lordes'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-8762076410546023001</id><published>2009-04-09T10:36:00.000-07:00</published><updated>2011-03-28T12:31:49.244-07:00</updated><title type='text'>Caranguejo</title><content type='html'>Juiz de Fora - MG, 1986.&lt;br /&gt;Dentro do sacolejante ônibus escolar, Natanael, de sete anos, era um dos mais miúdos. E o jeito tímido e assustadiço tornava a vida bem complicada. Em meio a tanta intimidação, tinha uma pessoa que conseguia descontraí-lo. Era um garoto ruivinho, chamado Fabrício, maior entre os maiores, e que estranhamente não se aproveitava do tamanho para obter vantagens. Pelo contrário, era divertido e amistoso. Comportamento intrigante para os garotos menores, que lamentavam com inveja o desperdício de tais atributos físicos. “Eu mastigaria o mundo se tivesse este tamanho”, pensava um deles. Mas Natanael simpatizava com Fabrício. Sobretudo, porque ele conseguia superar em infantilidade os menores. O “gigante” lembrava um personagem de desenho animado, afetado e histriônico. &lt;br /&gt;Quando o ruivinho saltava da poltrona e intimava Natanael para uma “lutinha”, toda a timidez era esquecida. Neste embate, ao qual sequer encostavam-se, mas simulavam movimentos ameaçadores, os garotos escolhiam identidades imaginárias. Fabrício sempre adotava a mesma: um leão. Após o primeiro rugido, Natanael corria em direção ao grande felino e parava à sua frente movimentando-se lateralmente. Ele também não costumava mudar seu personagem. Ao contrário dos meninos pequenos, que se identificavam com grandes guerreiros ou criaturas mortíferas, Natanael curtia assumir a imagem de um caranguejo - Um animal que, embora não pertença ao grupo dos mais perigosos, pode ser traiçoeiro com suas ágeis pinças e seu vagar de trajetória indefinida. Formulava mais ou menos assim seu grau de periculosidade. E aquele confronto chegava às raias do tédio absoluto para quem prestasse alguma atenção. Fabrício rugia e dava patadas no ar como se afastasse moscas. Na verdade, o vaidoso leão mostrava-se muito mais preocupado com a própria imagem do que com seu oponente. Natanael agitava freneticamente “suas pinças” de forma a construir uma barreira intransponível a qualquer predador. A “lutinha” terminava sempre da mesma maneira: O leão vaidoso virava-se, esquecendo-se do caranguejo, e permanecia rugindo de forma autista. Natanael pensava no perigo que era dar as costas assim para o mais perigoso dos crustáceos, mas não ligava. Naquele dia sentia-se cansado e com enjôo, intensificado a cada instante pelas manobras estabanadas da motorista, Tia Margarete. Recolheu-se à última poltrona para relaxar e acabou deixando a merendeira para trás, no meio do corredor. Sua casa ainda estava distante. Desanimou completamente.&lt;br /&gt;O despertar em meio à escuridão foi medonho. Natanael encarou assustado a fileira de poltronas na penumbra. A luz neón das placas de rua tremulavam dentro do ônibus. Parecia um pesadelo estranho. Beliscou-se. Espichou a cabeça para olhar pela janela e viu uma cena curiosa – Uma mulher enorme aliviava-se em um poste, porém o fazia de pé. A tal virou-se e enxergou o olhar atento de Natanael. “Oi, que cê tá olhando? Quer ver como o meu é maior que o seu?” Dito isto, a estranha mostrou o pau, para espanto do menino, que escondeu-se. &lt;br /&gt;De longe vinha o som de um animado pagode. Podia ouvir a batida e alguns gritos entusiasmados. Lembrou-se de um pesadelo recorrente:  Era noite e homens com horrendas máscaras tribais dançavam à volta de seu corpo amarrado. Quando ele acordava, muito assustado, os sons dos tambores ainda ecoavam em sua mente. Naquele momento, pensou estar preso em mais um de seus pesadelos. &lt;br /&gt;Chorar de nada ia adiantar. Era melhor sair do ônibus e pedir a alguém que o levasse para casa. Correu até a porta da frente e, para seu terror, ela estava trancada. Esmurrou-a desesperado, gritou por ajuda durante alguns minutos, e nada. A rua estava deserta e o som de seu desespero era abafado pela batucada. Natanael ficou desorientado, jamais experimentara tamanho horror. Como toda criança medrosa, ele temia, mais do que qualquer outra coisa na vida, se perder dos pais. Sem perceber, caminhou até o fundo do ônibus. De lá, em meio às sombras, ouviu a porta da frente abrir-se com um tranco. Emitiu um gemido surdo.&lt;br /&gt;Teve imenso alívio ao ver Tia Margarete subir as escadas, porém deteve-se. Atrás dela vinha engatado um moço sem camisa bem mais jovem. Pararam próximo às primeiras poltronas. Neste instante, o menino sentiu umidecer a parte de trás de sua bermuda. Na hora do pânico, sem perceber, havia se cagado. &lt;br /&gt;O casal estava em um belo amasso. Aquilo tudo era novidade para Natanael. Nunca tinha visto uma teta ao vivo, apesar daquela nem ser das melhores de se ver. Era murcha, caída e com mamilos tipo medalhão. Tia Margarete tentava conter, sem muita convicção, as ávidas mãos do rapaz. “Calma, Guto! Vão ver a gente aqui dentro! Abaixa! Fica no chão, vai!” Então o Guto abaixou o calção e ficou pelado. Em seguida, ele a derrubou no chão. Dava para ver só uma silhueta indefinida dos dois até Tia Margarete erguer-se, sentada sobre o rapaz, iluminada feito um arco íris pelas luzes da rua. &lt;br /&gt;Natanael sentia vergonha da sua condição de cagado, que o impedia de ensaiar um pedido de ajuda. Falaria com ela, que poderia rir dele, pensava. Ou pediria ajuda ao cara, que era um desconhecido e poderia fazaer troça pior. A real personalidade de Natanael, covarde e ao mesmo tempo orgulhosa, se manifestava com força. Ele voltaria a sentir tais sensações muitas vezes ao longo da vida. Infelizmente.&lt;br /&gt;Parado no fundo do ônibus, em meio à escuridão, o menino tinha os olhos mais acostumados com a pouca luz. Debaixo de uma poltrona, pouco à frente do casal, conseguiu reconhecer sua merendeira, tombada e esquecida. Levantou depressa. Não podia perder mais uma delas. Já estava na terceira. E o ano mal começara. Sua mãe já o ameaçava com a possibilidade dele levar o lanche dentro de uma sacola de supermercado, caso voltasse a perder merendeiras. Em um instante, esta passou a ser a principal preocupação de Natanael, a ponto de aproximar-se resoluto de Tia Margarete, medonha com as tetas balançando de baixo para cima. Ia pegar a merendeira e pedir para lhe levarem de volta à sua casa, depois que terminassem o que estavam fazendo, claro. Podia receber um safanão da fogosa motorista por surpreendê-la sem roupa, mas era preciso agir, pensou.&lt;br /&gt;O menino se esgueirava de cócoras, em direção à merendeira, quando ouviu Tia Margarete comentar: “Aff... Que cheiro de merda é esse?”. “Deve estar vindo lá de fora! Continua aí, porra”, impacientou-se o tal do Guto. Ao ouvir o diálogo, Natanael ficou paralisado no meio do caminho. Foi quando se fez um grande alarido. Alguém chutava a porta do ônibus. Tia Margarete percebeu, tarde demais, que não a tinha trancado. &lt;br /&gt;“Te peguei, cachorrona! Foi para isso que eu comprei esse ônibus? Foi pra tu ficar pagando de puta dentro dela, sua vagabunda?!” Este foi o trecho mais ameno da gritaria iniciada pelo homenzinho de cabeça chata, que apareceu sem ser convidado. Natanael percebeu a gravidade da situação. Tia Margarete urrava feito uma louca, xingando e desculpando-se ao mesmo tempo. O Guto continuou no chão, calado, tentando misturar-se às sombras. O homenzinho então puxou o cabelo da Tia Margarete, pedindo-lhe “silêncio, sua vaca”. “O que vai fazer agora? Me matar? Nunca foi homem de verdade! Eu  sei da travecada com que tu anda!”. O homenzinho perdeu de vez o controle. Puxou uma faca e a colocou no pescoço dela. Aí o Guto resolveu se mexer. Tentou sair, de quatro, pela porta da frente, mas foi interrompido. Dava para perceber desde o início que o marido chifrado não seria capaz de atentar contra a mulher e, talvez por isso, cravou impiedosamente a faca nas costas do rapazinho fujão. Guto mugiu profundamente. Começou a chorar de nervoso. O homenzinho o atirou para o chão do ônibus novamente. “Tá achando que vai picar a mula assim seu  filha da puta?” O corno deu duas bicudas no corpo caído do rapaz.&lt;br /&gt;Natanael avançou novamente e já estava no meio do corredor. Aproveitou a confusão para tentar reaver a merendeira. Porém, uma lingua negra se arrastou em direção à ele. Era o sangue que escorria do corpo de Guto. Natanael olhou com nojo para as próprias mãos, ensopadas de vermelho, mas alcançou o objeto desejado. Sentiu-se mais seguro a partir daquele momento.&lt;br /&gt;Na frente, a gritaria continuava. “Olha esta sangueira, seu cabeça oca dos infernos!”. “Calaboca, que tu tá no lucro de não ser o teu sangue aí no chão”. “Dessa vez você vai para a cadeia e eu não vou fazer na... Putamerda! O que o garoto tá fazendo aqui?” Tia Margarete encheu-se de cólera ao ver o vulto de Natanael agachado ao lado do corpo de Guto. “Responde para mim, seu pivete vagabundo!” Em desespero, o ferido agarrou a perna do garoto, pedindo, "pelo amor de Deus", que lhe prestasse algum socorro. Com uma mão ensanguentada segurando a merendeira e tendo a barra da calça agarrada pelo miserável, Natanael ficou paralisado. Tia Margarete não o reconheceu. "E agora?", perguntava-se. Até que o nordestino resolveu intervir. “Vocês não gritem com a criança não, seus desalmados! O coitado tá assustado com a sem vergonhice de vocês.” Dito isto, o corno puxou Natanael pelo braço. O menino não conseguia balbuciar nada, tamanho o susto. Na passagem, a ensandecida motorista ainda disparou: “Foi você que dedurou para ele! Não foi moleque?” Depois da intimidação, levou uma coronhada e foi parar em cima do Guto. Manchada de sangue, ficou em choque. O corno saiu porta afora levando Natanael. Ao olhar para trás e perceber que a mulher ficara cuidando do ferido, não teve dúvida, trancou a porta por fora. Isto provocou novos protestos da traidora. Da rua, porém, os gritos eram engolfados pelo som do pagode da rua de cima, que agora estava em seu clímax. &lt;br /&gt;“Onde você mora, bichinho?”. Natanael só conseguiu falar alguma coisa quando já estava dentro da brasília velha do homenzinho. Foi tratado com muita docilidade; e a calma dele contrastava muito a histeria de minutos antes. Para o menino, estar cagado dentro do carro não era nada, visto que o motorista cheirava a cueca suja. Não era a mais agradável das atmosferas ali dentro. &lt;br /&gt;Natanael indicou sua casa e foi deixado na porta após uma despedida apressada do motorista. “Diz para sua mãe que tu não teve culpa de nada. Dorme bem, garoto”. Quando a preocupadíssima mãe irrompeu na porta, a barulheira da brasília ainda ecoava. Ensaiou uma bronca, mas procurou acalmar-se. “Não faça mais isto com sua mãe! O que te fizeram?”. “Eu dormi... Acabei fazendo nas calças... Não conte pra ninguém”. Natanael foi dormir após um demorado banho. Estava com a bunda assada. Durante a noite, sentiu uma excitação boa.  Pensava na melhor maneira de contar aquela história maluca para os meninos do ônibus. Era todo auto-confiança. Não seria mais um caranguejo nas lutinhas, poderia escolher um personagem mais importante para si.&lt;br /&gt;No dia seguinte, o primo mal-humorado de Natanael o levou de carro para a escola. Foi assim até a mãe do menino contratar outro ônibus escolar. A decepção foi grande para o revitalizado garoto, principalmente após constatar que o novo ônibus era freqüentado por figuras hostis e mais amedrontadoras. O pequeno afundou-se novamente em sua timidez sufocante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-8762076410546023001?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/8762076410546023001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=8762076410546023001' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/8762076410546023001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/8762076410546023001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/04/caranguejo.html' title='Caranguejo'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-4213281620413494293</id><published>2009-03-31T10:31:00.001-07:00</published><updated>2011-07-21T13:51:22.388-07:00</updated><title type='text'>A marquise</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/Se-Em_f5yZI/AAAAAAAAAAg/xI0umvmK5S8/s1600-h/ilustracao_a_marquise_versao_02_menor.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5327622689617725842" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/Se-Em_f5yZI/AAAAAAAAAAg/xI0umvmK5S8/s320/ilustracao_a_marquise_versao_02_menor.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/Se9seiw7G1I/AAAAAAAAAAY/of3PWogfpMk/s1600-h/ilustracao_a_marquise_fundo_assinatura_menos_contraste.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sábado, pouco depois do meio-dia, quando uma chuva avassaladora castigou São Paulo. O dilúvio pegou a população de surpresa, e deixou alguns pedestres desavisados sem proteção, ao abrigo de marquises. Embaixo de uma delas ocorreu o encontro de Adamastor e Augusta. Em comum eles pareciam ter apenas a pobreza. Mas Adamastor ganhava de longe no quesito repugnância. Neste aspecto a Augusta não merecia ser criticada. As roupas de tecido vulgar em tons cinzentos, os cabelos amarrados numa enorme trança, que percorria toda a dimensão das costas, semelhante a uma espinha dorsal, a ausência de perfumes e fragrâncias, e o semblante austero, expressavam bem a personalidade recatada da moça, frequentadora típica de templos evangélicos. Toda a indumentária era muito digna, uma dignidade até excessiva, cuja intenção parecia ser a de catequizar almas desviadas. Já o Adamastor parecia ter, bem... matizes mais profundas. O físico era amuado, não somente pela fraqueza e desnutrição. Existia ali uma postura de cão vira-lata, desses que a gente repele com um simples aceno, para logo retornarem ao virarmos as costas. Vivia impondo, irritantemente, a presença de sua carranca desagradável, de olhos baixos e dissimulados. Não bastasse a feiúra fora do comum, vestia-se andrajosamente e cheirava a gordura velha. A pobreza de Adamastor não inspirava pena, era abjeta por provocar sentimentos cruéis entre os demais. Queriam-no sempre longe, pois ninguém quer sentir desprezo gratuito por alguém, muito menos por um despossuído. Porém, aquele olho baixo, que olhava de esguelha, resvalava a depravação. Augusta sentiu tudo isso de maneira instintiva e logo deu-lhe as costas. Pacientemente, ficou a contemplar a tempestade. Notando a sobriedade impoluta dos gestos de Augusta, Adamastor sentiu-se impelido a se aproximar, e o fazia com água na boca, já antevendo o desprezo ou as injúrias que seriam dirigidas a ele. Não dava para resistir, era como um cachorro diante de um amontoado de ossos lhe atirado na fuça. O prazer que vinha das profundezas. Talvez a última escala da excitação mundana. Dirigiu-lhe o primeiro murmúrio.- Óie... Isso é chuva pra varar dia e noite. A moça fingiu não notar. Nem sequer um tremor. Adamastor deu mais um passo em direção a ela e continuou sua cantilena sem sentido.- Dona, pode olhar pra mim, não sou bicho não, viu!? – choramingou o miserável. Augusta olhou rapidamente sem conseguir disfarçar uma feição desagradável. Respirou fundo e virou-se para ele novamente, desta vez com cara bem mais misericordiosa, tal qual faria um cristão de bem diante de uma figura daquelas. Tornou a contemplar a chuva, por fim. O homem era de fato pobre e vadio, morava num quartinho de um prédio antigo arrasado, no centro da cidade. Vivia de bicos como encanador e eletricista. Tinha pouquíssima instrução. Não havia passado do ensino primário. O resto do aprendizado era fruto dos cachações levados do pai na infância e adolescência, além de andanças entre prostitutas, malucos, freqüentadores de botecos e outros tipos da noite. Apesar da ignorância, brotava em Adamastor uma malícia doentia em certas ocasiões. O desprezo alheio o excitava, mais ainda quando partia de mulher. A carola era o tipo ideal para extrair-lhe tais sensações. Já havia torrado alguns tostões com prostitutas de quinta categoria. Nunca obtivera sexo de outra forma e, geralmente, não era o ato a dois que lhe interessava. Costumava pagar a elas por horas de xingamentos, algumas agressões físicas e outras humilhações boladas na hora. As putas adoravam. Afinal, também sentiam repulsa por Adamastor. Algumas faziam de graça, quando dispunham de tempo extra. Ali naquela marquise, era a chance de descolar uma experiência diferente, vinda de um mundo que não lhe oferecia muitas brechas. Augusta o colocaria em seu lugar reles, pensava o solitário homem.- Dona, a senhora já tem um companheiro?- Não é assunto seu. Por favor, não me incomode.- Ora, mas por quê? Temos tempo de sobra pra prosear, se conhecer melhor...- Não tenho vontade, obrigada. Se continuar... vou embora na chuva mesmo. – Desta vez, Augusta o fulminou com o olhar. Adamastor sorriu molengamente com dentes de gambá velho. Guardou longa pausa e recomeçou:- Nesses dias de friagem, de chuva pinicando nossa cara, dá uma amargura no coração. Nem queira imaginar. Sabe o que serve para acabar com essa agonia? Hein? Hein?- Não sei, não me conte. O senhor está me assustando. Olhe bem, não faço parte da tua laia. Vou gritar! Chamo o guarda! – Augusta fazia ameaças, porém não parecia disposta a correr dali e enfrentar o dilúvio. Estava difícil enxergar qualquer coisa mais à frente. Tudo alagado. Augusta e Adamastor foram obrigados a ficar num cantinho exíguo, ainda não tomado pela enchente. A moça, aos vinte e nove anos de idade, nunca havia estado tão próxima de alguém que a desejasse de maneira explícita. Sentiu um grande temor em dividir intimamente o ar com aquele vagabundo de rua. Já a excitação de Adamastor crescia, não pela proximidade do corpo feminino, e sim pelo nojo despertado em Augusta.- Não chega muito perto!- Mas você não vê? Só sobrou esse cantinho sem água. Temos que ficar bem juntinhos. Vem cá nega, eu te protejo.- Não se enxerga?? Pode recolher essa asa que de mim não vai ter nada!!Já se dava quase por satisfeito o pobre gaiato. Os insultos desferidos por Augusta estavam muito aquém dos habitualmente dirigidos a ele. Porém, estes pertenciam a outra categoria. Partiam de uma jovem impossível de ser sua. Nem mesmo nos mais delirantes sonhos algo assim se consumaria, pensava. Por isso o prazer era mais entorpecente. Noutra ponta, Augusta guardava um semblante reflexivo. Calmo demais até. O breve estado de descontrole se dissipara. Não era o temor de uma ameaça física que lhe desestabilizara. O homenzinho era reles demais para ousar tanto. Sempre fora de fugir cegamente de aproximações como aquela. Normalmente, os homens apresentavam-se como barreira intransponível para a virginal beata. Augusta não chegou a atingir um estado catártico de pensamento, mas pensou surpresa em uma hipótese. Adamastor era miseravelmente feio e inofensivo, apesar de repelente, porém percebera na paupérrima figura um desamparo enorme. O peso intimidatório da presença masculina, sempre vivenciado por ela, inexistia ali. E ainda era possível sentir compaixão. Feito. Abriria a guarda, enfim.- O que quer de mim exatamente?Adamastor parecia supreendido com a pergunta. Permanecia até então plugado em íntimos devaneios. Acordou subitamente, e parecia não entender a razão daquela serenidade no olhar de Augusta. Ficou em dúvida se poderia conseguir alguma vantagem com a mudança no rumo da conversa. Estremeceu. Ela usava o tom de uma assistente social, psicóloga ou coisa assim... Ele então arriscou, sem muita convicção, uma iniciativa.&lt;br /&gt;- Quero comer você.&lt;br /&gt;Ele quase engasgou com a resposta enfática proferida.&lt;br /&gt;- Pois vamos em frente. Mas onde você vai me levar?&lt;br /&gt;- Como assim? Que você tá falando?&lt;br /&gt;- Falei que devíamos procurar um lugar melhor, ou você acha que eu iria me entregar debaixo desta marquise suja...&lt;br /&gt;Adamastor não segurou o impulso e decidiu parar de fingir.&lt;br /&gt;- Ora, mas o que deu em você, dona? Você é alguma mulher da vida e eu não tô sabendo? Tenho dinheiro não... Tô entendendo mais nada... – De tão confuso, ele estava prestes a sumir dali, enfrentando o dilúvio.&lt;br /&gt;- Eu quero o que você quer, senhor – o “senhor” fizera-o arregalar os olhos – Ou será que desistiu? Não faço mais o seu tipo? Desculpe... - Ela falava sério.&lt;br /&gt;Por um instante, Adamastor a achou bonita como as mulheres de cartazes de cerveja. Correu decidido contra o denso véu de chuva. Sumiu logo à frente, como se atravessasse uma catarata. Augusta ficou um pouco desapontada, mas entendeu a fraqueza do pobre homem. Uma vida de privações certamente geraria um comportamento controverso. Mas não seria aquela privação a mais injusta de todas, justamente por ser uma auto-privação? Talvez. Ela se sentiu melancólica com estes pensamentos, mas logo apagou da memória. Apenas um fator é digno de nota: Augusta se tornou uma moça mais desembaraçada desde então. O onipresente Adamastor desapareceu, o que diga-se a verdade, para alívio de muitos. O arrependimento pela recusa à oferta de Augusta custara-lhe o último fiapo de sabor de vida existente. O peso dos maus-tratos, já experimentados, caíam pesadamente de uma só vez. Não era possível tirar qualquer prazer daquilo novamente. Quebrara-se o encanto. Isto, para uma alma tão depravada, era a morte. A única solução seria encontrar Augusta novamente e esta era uma hipótese dificílima de concretizar-se. Numa cidade deste tamanho, é fácil sumir sem deixar vestígios. Para Adamastor não existia mais sobrevida. Então era melhor desaparecer mesmo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;*Ilustração de Ricardo Coimbra&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-4213281620413494293?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/4213281620413494293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=4213281620413494293' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4213281620413494293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4213281620413494293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2009/03/marquise.html' title='A marquise'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/Se-Em_f5yZI/AAAAAAAAAAg/xI0umvmK5S8/s72-c/ilustracao_a_marquise_versao_02_menor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-2125798316459458747</id><published>2007-11-13T13:23:00.000-08:00</published><updated>2011-04-05T08:47:19.049-07:00</updated><title type='text'>A cabeça</title><content type='html'>Norberto acordou confuso. Atravessou o apartamento, um quarto e sala, com passos vacilantes. Procurou por água na geladeira. Nem uma gota. Nada sobre o dia anterior lhe vinha à mente. Pouco se importou, pois os dias pareciam sempre iguais para ele. Supôs então ter completado mais uma jornada monótona ao boteco da esquina. Uma ligeira angústia começava a formar-se em seu peito. Normal. A ressaca deixava-o assim. Se deu conta de um cheiro desagradável, semelhante ao de carne podre, a pairar sobre o ambiente. Pensou sinceramente ser ele próprio a exalar. Pensou nisso com tristeza. Mas sob a luz da consciência, afastou a idéia. Jogou-se no sofá-cama da sala e ficou ali respirando desinteressadamente. Passada uma hora inteira, o cheiro deletério pesava bem mais. Começava a incomodar. Voltou à geladeira. Vasculhou. Nada. Apenas uma caixa de nuggets vazia. Colocou a cabeça para fora da janela e sentiu os pulmões aliviados. O odor não vinha da rua. Podia ter vomitado em algum lugar insuspeito do apartamento... isso já ocorrera antes. Não achou nenhuma mancha pelo chão. Era ridículo ter dificuldade em encontrar alguma coisa naquele cubículo. Nada na cozinha, nada no banheiro, no quarto ou no saco de roupa suja. Talvez o ralo. Desistiu. Não estava acostumado a ser persistente em suas buscas. Já era velho demais para ter tanta obstinação, refletiu. O certo, em um dia como aquele, seja qual fosse, era voltar para a cama. Mais sadio. Pensou que as chances de ter algum desgosto, na cama, são bem reduzidas. Adormeceu por duas horas e meia. O despertar foi ainda mais torturante que o de outrora. Sentia frio, o estômago estava corroído pela falta de alimento e o fedor infestava todas as dependências do apartamento. Foi em busca de um cobertor bem grosso para se esconder debaixo. Levantou o assento do sofá-cama e enfiou a mão dentro. Enroscou os dedos em algo que lembrava cabelo humano. Estremeceu. Acendeu a luz e olhou o vão do sofá com espanto. Eram cabelos humanos... e pertenciam a uma cabeça. Um manequim? Não. Aquela cabeça fora degolada do pescoço de alguém. E começava a apodrecer. É dispensável dizer que ali estava a origem do mau cheiro, que agora piorava dramaticamente. Mais intrigado do que assustado, Norberto colocou a cabeça no chão e pô-se a refletir. Buscava na memória alguma explicação plausível para o achado inusitado. Após breve reflexão, concluiu que seu temperamento, mesmo alterado pela bebida alcoólica, não seria capaz de um estrago daqueles. Não tinha mais o que pensar. De resto sobravam apenas especulações. Sentiu preguiça em elaborar uma forma de livrar-se da cabeça. Ficou olhando para ela. Reparou que o corte tinha sido feito bem no alto do pescoço. Não conseguia distinguir o sexo daquela cabeça. O tom da pele mesclava cores como cinza, verde e roxo, mas o amarelo predominava. O cabelo era liso, escuro com alguns fios brancos, e desgrenhados. Buscou um pente para penteá-los. O fez cuidadosamente. Ainda assim, não conseguiu descobrir o sexo. Mas não sentiu remorso por contribuir para a indigência da cabeça. Que fizera ela para vir parar aqui? Levantou para se livrar definitivamente da coisa. Andou pelo corredor do prédio. Ouviu barulho em uma das portas vizinhas e, covardemente, correu de volta para seu apartamento. Ficou bufando por uns instantes e, de repente, ocorreu-lhe um pensamento bem humorado: “Dos troféus que trouxera para casa antes, este era o mais esdrúxulo”. Não tinha nada de engraçado. Apenas um taco de sinuca fora trazido ilicitamente para casa. Isso tinha acontecido há muito tempo atrás. Nada além. Agora era dominado por duas sensações simultâneas: tensão, e raiva por sentir tensão. Não merecia ter um problema daquela espécie. E agora? Não dava para simplesmente jogar a cabeça na lixeira. Jogar pela janela só seria divertido até ela cair dentro da piscina da mansão fronteiriça. Alguém poderia ver e complicar tudo. Chamar a polícia então. Sempre se atrapalhava na presença de policiais, como se devesse algo. Entrelaçou os os dedos pelos cabelos e levantou a cabeça à altura de sua face. Ser ou não ser? Assumir ou não um papel diante da vida. Era difícil continuar se esquivando. Será? Optou por zombar amargamente de tudo aquilo e não fazer rigorosamente nada. Guardou a cabeça dentro do sofá cama. O cheiro teria que esvair-se um dia. Aquele resto mortal ficaria ali guardado. Seja lá de quem fosse. Agora era uma relíquia. Um símbolo de sua própria inaptidão para iniciativas. A representação física da liberdade de não se fazer nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-2125798316459458747?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/2125798316459458747/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=2125798316459458747' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/2125798316459458747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/2125798316459458747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2007/11/cabea.html' title='A cabeça'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-1961230097855028571</id><published>2007-07-20T09:06:00.000-07:00</published><updated>2009-04-09T10:39:03.058-07:00</updated><title type='text'>A Arca de Noé</title><content type='html'>&lt;/span&gt;PRÓLOGO: Noé, um barbudo de meia-idade, conversa com o céu como se fosse um maluco. E o pior é que o céu responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Deixa ver se eu entendi: Você criou tudo o que está à minha volta e agora quer simplesmente acabar com tudo?&lt;br /&gt;CÉU: Minha insatisfação reside especificamente na conduta dos homens. Quero começar tudo de novo, mas pretendo poupar os animais desta punição. Por isso escolhi você, Noé, um homem bom, para conduzir um par de cada espécie animal até uma localidade distante. Claro que você levará sua família junto, assim estarei garantindo um novo começo para a humanidade.&lt;br /&gt;NOÉ: E quem disse que eu sou assim tão bonzinho?&lt;br /&gt;CÉU: E não é?&lt;br /&gt;NOÉ: (Gasp)Oh, claro que sim.&lt;br /&gt;CÉU: Providenciarei uma arca encantada. Totalmente impermeável, inquebrável e com garantia contra catástrofes.&lt;br /&gt;NOÉ: E o que vai acontecer com os outros?&lt;br /&gt;CÉU: Trovejarei sobre a Terra como nunca dantes. Tudo irá afundar, pode crer?&lt;br /&gt;NOÉ: Se tu que tá dizendo... Mas eu tenho uma coisinha a acrescentar.&lt;br /&gt;CÉU: Diga meu bom Noé.&lt;br /&gt;NOÉ: Eu posso ser um cara legal, mas minha família não é. Para o bem da humanidade temos que fazer diferente. Eu não suportaria ver meus filhos trepando entre si, ou mesmo com a mãe, para garantir o futuro da humanidade. É pecado, pô!&lt;br /&gt;CÉU: Não havia pensado nisto. O que você sugere para equacionarmos este problema?&lt;br /&gt;NOÉ: Faz o seguinte: Cria umas três Evas pra mim e, assim, eu farei filhos com as três e estes filhos se cruzariam da mesma forma. Afinal de contas, meio-irmão não é parente. Ah, e minha família fica. Eu sofrerei imensamente, mas é pela lisura da causa. Vamos começar tudo de novo e desta vez sem pecados grotescos.&lt;br /&gt;CÉU: Está bem, meu perspicaz Noé. Mas só verá as Evas em terra firme e isto se tudo correr bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena1: Noé discursa no convés para os animais ainda em terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Queridíssimos exemplares da fauna terrestre, estamos todos aqui reunidos, preparados para zarpar, com o intuito de fazer valer o sacrifício de todas as nobilíssimas criaturas na iminência da morte por afogamento no grande dilúvio. Vocês têm a divina missão de procriarem em algum pedaço de chão sagrado reservado para nós e, assim, darem prosseguimento ao irrefreável milagre da vida. Portanto, bicharada escrota, nada de comer a merenda antes do recreio! Deixem para fazer suas safadezas quando chegarmos ao nosso destino. Lembrem-se que essa nau tem limite máximo de peso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena2: Animais sobem a rampa com as caras contrariadas. Alguns comentam entre si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CASTOR: Muito folgado esse barba branca. Só porque ele não deve dar mais no couro, fica exigindo abstinência sexual para nós.&lt;br /&gt;ALCE: Tenho vontade de chifrar a bunda deste velho quando lembro que vivia cercado pelas mais belas fêmeas em idílica poligamia. Agora tenho que me contentar com esse bucho escolhido por ele. (Aponta para uma alce vesga e de aparelho nos dentes, seu par na arca.)&lt;br /&gt;VEADO: (Suspiro) Para mim tanto faz. Assim que chegar na tal ilha escolhida por Noé, pretendo doar meu sêmen. Ele que faça bom proveito. Não conseguirei fazer sexo com ela. Tenho muitas saudades do meu primo... (A linda veadinha ouve o comentário, fica arrasada, derrama uma lágrima.)&lt;br /&gt;Castor e Alce se entreolham. Sapo assiste a cena, faz uma careta e comenta:&lt;br /&gt;SAPO: Acho que o recrutamento de Noé não foi muito criterioso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena3: Noé acompanha a subida dos animais e grita histérico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Andem logo, seus mal-cheirosos!! (Encosta o cajado eletrificado na bunda do Senhor preguiça, todo distinto de maleta na mão e chapéu, que vinha por último na fila. Senhor preguiça dá um pulo e vai parar alguns metros adiante.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena4: Todos os animais já ocupam a Arca de Noé. Uma papagaia de laço na cabeça grita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPAGAIA : Içar âncora!!&lt;br /&gt;NOÉ: Quem manda aqui sou eu, porra! (Noé fica puto com a ousadia e dirige seu cajado eletrificado para a papagaia. Esta dá um berro e perde algumas penas no incidente.)&lt;br /&gt;PAPAGAIA: Currupaco!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena5: A Arca de Noé começa a se distanciar do continente. Porém, pode-se enxergar um animalzinho com uma trouxinha nas costas chegando todo esbaforido na praia. É o papacu da cabeça roxa de Bornéu, um animal de aparência incrivelmente fálica. Ele avista a Arca se distanciando e começa a se lamentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPACU: Ai meu Deus!! Atentem para a gravidade da situação! Meu par embarcou sem mim. Não sou eu apenas o condenado, mas toda a minha espécie. O mundo também! Como poderá evoluir sem um animal da minha estirpe? O futuro não é para os papacus. O futuro será nebuloso, frio, caótico, cruel. Eu profetizo em nome de um dos maiores carnívoros que já pisaram na terra.&lt;br /&gt;O papacu se ajoelha na areia e lavanta os braços para o céu. Enquanto isso, a papacu assiste tudo do convés. Ela implora para Noé voltar, mas leva um safanão, cai na água e tenta nadar de volta para o continente. Morre na tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena6: Noé passa algumas recomendações aos animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: A parada é o seguinte, a comida de vocês é pouca. Portanto, só haverá uma refeição por dia.&lt;br /&gt;PROTESTOS GERAIS&lt;br /&gt;NOÉ: Calem-se!! Cumpram o regulamento ou serão atirados para fora do navio. Quem estiver ao meu lado será recompensado. (Noé pára de falar, percebe que o cachorro se esfrega carinhosamente nos seus joelhos.) Muito bem cão, assim você terá futuro aqui dentro. (Em seguida Noé dá um bico no cachorro.) Agora vai caçar tua cadela.&lt;br /&gt;CACHORRO: Caim, caim!!&lt;br /&gt;LOBO: (Vira-se e comenta com a loba) Nossa, como esse cara se humilha. A vida na cidade fez dele um cuzão. (Ao fundo, o cão, ainda com estrelinhas de dor saindo do lombo, cheira as próprias fezes.) Eca.&lt;br /&gt;NOÉ: Vou para os meus aposentos. O de vocês fica no porão. Ah! Mais uma recomendação: (Tigre prepara-se para abocanhar uma cutia) Quem comer algum tripulante do navio sofrerá severas punições (Tigre sorri constrangido para cutia, que retribui lhe estendendo o dedo positivo).&lt;br /&gt;CUTIA: Eu entendo, cara. Esta é a sua natureza, não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena7: A noite vem. Nos porões do navio, o breu é completo. Os animais parecem não ligar muito para a abstinência sexual imposta por Noé. Ouvem-se comentários anônimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CASAL1: ELA: Nossa! Vai com calma! Nós acabamos de nos conhecer. Ui!&lt;br /&gt;ELE: Sem essa. Aqui dentro nós podemos pular estas formalidades.&lt;br /&gt;CASAL2: ELE: De que adianta beleza interior se o pau não tem olho?&lt;br /&gt;ELA: Meu deus, fique longe de mim.&lt;br /&gt;CASAL3: ELE: Nossa! Que cloaca mais fedorenta&lt;br /&gt;ELA: Ei! A idéia de começar por aí foi sua, seu grosso!&lt;br /&gt;ELE: Porra!! Sai daqui jumento!&lt;br /&gt;ELA: Deixa ele! Vamos incrementar as coisas.&lt;br /&gt;ELE : Mas ele vai te matar. É contra as leis da natureza.&lt;br /&gt;ELA: Aahh, eu morro feliz.&lt;br /&gt;JUMENTO: Hi-hooon, hi-hooon...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena8: Dia seguinte. Noé organiza a primeira refeição do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Vocês estão com aparência cansada. Parece até que não dormiram direito. (Animais apresentam olheiras, algumas fêmeas têm satisfação no olhar. O veado está indiferente, enquanto a veada destoa por apresentar tristeza.) O menu de hoje está muito sofisticado. Coisa boa, importada (Os animais se animam).&lt;br /&gt;TATU: Se for comida árabe, vou logo avisando que sou alérgico.&lt;br /&gt;MACACO: Será que é pizza?&lt;br /&gt;EUFORIA GERAL: Pizza! Pizza! Pizza!&lt;br /&gt;NOÉ: Façam fila, porra! Aqui não tem lei da selva não. Todo mundo vai comer.&lt;br /&gt;JABUTI: Muito sensato.&lt;br /&gt;Noé destampa duas bandejas. Uma pilha de feijões com olhinhos divertidos.&lt;br /&gt;TATU: O que é isto?&lt;br /&gt;NOÉ: São feijões saltadores. Comam antes que eles fujam.&lt;br /&gt;JACARÉ: Estão fugindo!!! (Os feijões começam a saltar para todos os lados. A maioria pula para o mar. A fila se desfaz completamente, os animais correm em pânico atrás dos feijões. Noé cai no chão atropelado por um búfalo mais afoito.)&lt;br /&gt;NOÉ: Vai com calma, seu bestalhão! (Os feijões bóiam no mar, felizes. Os animais observam da proa, tristes e com as línguas de fora.)&lt;br /&gt;FEIJÃO1: Olhem só para estes idiotas.&lt;br /&gt;FEIJÃO2: Dá até pena.&lt;br /&gt;FEIJÃO3: Eles que comam uns aos outros (Surge um peixe enorme e abocanha os feijões, que não são nadadores, de uma vez só).&lt;br /&gt;QUATI: Vejam, sobraram alguns na bandeja!! (Os animais, todos, se acotovelam numa corrida em direção aos três grãos que dormem sobre a bandeja. A girafa, na maior calma, estica seu pescoço, ultrapassa todo mundo e abocanha os feijõezinhos.)&lt;br /&gt;GIRAFA: Hahaha! Sacaneei todo mundo (O gorila dá um safanão na cara da girafa, que perde dois dentes).&lt;br /&gt;GORILA: Quero ver tu mastigar agora.&lt;br /&gt;GALO: E agora, Seu Noé?&lt;br /&gt;NOÉ: Não levanta esta crista pra mim não. Lamento informar que a próxima refeição é só amanhã. (PROTESTOS GERAIS) Silêncio que eu vou tirar a minha sesta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena9: Animais enfileirados com cara de cansaço, alguns já apresentam as costelas à vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Os dias sucedem-se de forma tensa. Os animais cada vez mais estressados com a tirania e o senso de humor peculiar de Noé.&lt;br /&gt;NOÉ: Meus queridos, comam à vontade. (Noé destampa uma bandeja. Antes mesmo que o gambá, primeiro da fila, pudesse servir seu pratinho, uma horda de gafanhotos depositados sobre a bandeja voam em disparada. Mais uma vez a comida foge.) Ih... eu esqueci de avisar que a comida estava um pouco mal passada. Huahahahaha!&lt;br /&gt;Os animais se entreolham com resignação. Um papagaio de boininha vermelha na cabeça comenta com o ornitorrinco.&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Sabe camarada, isso já foi longe demais. Temos que virar este jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena10:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Certa noite, Noé decide dar uma incerta no alojamento dos animais e se depara com o óbvio.&lt;br /&gt;Olhinhos no escuro se esbaldam antes de Noé aparecer com um lampião.&lt;br /&gt;FÊMEA: (...) Mas é errado. Nós já fizemos quinze filhotes e daqui a pouco vai começar a dar na vista...&lt;br /&gt;MACHO: Ta bom, eu tiro antes de chegar lá.&lt;br /&gt;FÊMEA: Ah, mas você sempre fala isto e...&lt;br /&gt;Noé aparece com um lampião na mão&lt;br /&gt;NOÉ: Ô porra! Vocês acham que isto aqui é algum tipo de orgia romana é? [Confusão geral. Macaco copula com macaca de quatro, cisnes praticam o 69 (Lindo esteticamente) e o coelho está em choque, com o pau na mão pingando, enquanto a coelha protege uma prole de quinze coelhinhos. Noé usa o cajado eletrificado para separar os animais engalfinhados.] Bem que eu vinha notando um crescimento populacional neste navio.&lt;br /&gt;Do alto de seu puleiro o papagaio desafiou.&lt;br /&gt;PAPAGAIO: É isto mesmo senhor Noé, nós animais optamos pela desobediência civil frente aos desmandos e regras severas impostas pelo senhor, portanto...&lt;br /&gt;Antes que o papagaio terminasse, Noé, vermelho de cólera, parte pra cima do bicho que voa desesperado.&lt;br /&gt;NOÉ: Ei, cão! Traga aquele papagaio para ser degolado. Taí um bichinho que eu não faço questão alguma de evitar a extinção. Vá!!&lt;br /&gt;O cão entra num dilema. Em forma de flashbacks vêm à sua cabeça as diferenças de tratamento advindas de Noé e do papagaio. O primeiro sempre o tratou aos chutes, apesar de sua lealdade. Enquanto o camarada papagaio lhe ensinou muitas palavras novas e o tratou como um bom amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLASHBACK DO CACHORRO (P&amp;B)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OCASIÃO1: Noé e o cachorro no convés:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Rala peito, ô pulguento (chuta o cão).&lt;br /&gt;CACHORRO: Cain!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OCASIÃO2: O papagaio ensina ao cachorro, através de um quadro negro, palavras novas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Repita comigo: RE-VO-LU-ÇÃO.&lt;br /&gt;CACHORRO: Au, au!&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Não, é RE-VO-LU-ÇÃO.&lt;br /&gt;CACHORRO: Ão, ão!&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Muito bem, você está evoluindo (Afaga a cabeça do cachorro com a asa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM DO FLASHBACK CANINO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Não me escutou, animal estúpido?&lt;br /&gt;O cachorro, até então em transe, volta a si e muda seu semblante. Agora rosna ferozmente para Noé.&lt;br /&gt;CACHORRO: Grrrrr... Au! Au!&lt;br /&gt;NOÉ: Então ousa mostrar os dentes para mim, seu primitivo! (Noé estica o cajado e o animal leva uma descarga elétrica poderosa. O cão fica atordoado e o ancião vira-lhe as costas.) Afinal de contas o que é isto? Um motim? Lembrem-se que esta é uma missão divina, portanto eu sou o todo poderoso dessa merda de jangada (Aponta o dedo para o céu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena11:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: As coisas começam a se complicar para Noé. Os animais já não o respeitam como antes. Noé abre armários e baús e é sempre a mesma coisa.&lt;br /&gt;NOÉ: Mas o que é isto? (Tamanduás transam no armário da cozinha.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Cada vez mais bizarro.&lt;br /&gt;NOÉ: Santo Deus!! (Abre baú e se depara com o veadinho chupando o gorila enquanto é enrabado por uma lontra.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena12:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: No alojamento dos animais, o papagaio de idéias subversivas percebe que chegou a hora da ofensiva.&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Não precisamos deste velho para nada. Não devemos ter respeito pela causa divina que ele representa, pois impor-nos adoração de deuses não passa de uma velada prática de coação. Devemos acreditar em nosso trabalho e em nada mais. Vamos à primeira parte do plano. Quero um voluntário bem discreto para uma difícil missão. (O burro, a ovelha, o porco e o cachorro se entreolham.) Ei ovelha, vai ser você.&lt;br /&gt;OVELHA: Mas por que eu?&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Porque você não apareceu na estória até agora. Precisa ser útil para alguma coisa.&lt;br /&gt;OVELHA: O que eu faço?&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Vai se disfarçar de travesseiro no quarto de Noé.&lt;br /&gt;OVELHA: Glup! (Arregala os olhos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena13: Noé, de toquinha e pijama, espreguiça-se sentado na cama. Há uma vela na beirada do leito. A ovelha está lá, disfarçada de travesseiro, e tremendo muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: (Afofa a ovelha e deita-se)Aaah.... nada como dormir o sono dos escolhidos. (Arregala os olhos, levanta-se e começa a espirrar) Mas o que é isso? Atchim!! Eu sou alérgico a lã!! Quem botou esta merda aqui???&lt;br /&gt;A ovelha pula da cama e aproveitando-se da crise de espirros de Noé, trata de cumprir sua missão.&lt;br /&gt;NOÉ: Ei.... Volte aqui!!! Atchim!!&lt;br /&gt;A ovelha avista o cajado pendurado num cabideiro e se apodera dele. Depois foge assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena14: Uma hora depois, no alojamento dos animais de menor porte físico. A ovelha é efusivamente congratulada pelo sucesso da missão. Todos a rodeiam e a afagam. A ovelha, porém, não apresenta uma cara muito satisfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Muito bem, companheira ovelha. Esta foi a nossa primeira vitória.&lt;br /&gt;PORCO: É isso aí! Aquele velho grosseiro deve ter percebido que está perdendo terreno.&lt;br /&gt;ORNITORRINCO: O que faremos com o cajado?&lt;br /&gt;PORCO: Eu sou contra as práticas violentas. Acho que devemos destruí-lo.&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Eu também, camarada suíno. Mas às vezes, o bem de uma causa exige certos sacrifícios. Vamos guardá-lo, posteriormente podemos precisar.&lt;br /&gt;ORNITORRINCO: Peraí, não exagere. Trata-se de um sexagenário autoritário. Qualquer um de nós, com um pouco de aplicação poderia derrubá-lo.&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Lembrem-se que boa parte da tripulação acredita piamente na causa divina incorporada por Noé.&lt;br /&gt;PORCO: Ei ovelha, que cara é esta?&lt;br /&gt;OVELHA: Quero registrar o meu protesto quanto ao artigo referente a mim. Como assim companheira ovelha? Eu sou macho. Pô! Eu sou “o ovelha” e não “a ovelha”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena15: Manhã. Noé no convés mais puto do que nunca. No seu ombro, entrelaçado em sua barba e no alto da cabeça, filhotes de coelhos e esquilos, alguns de chupeta, compõem a patética cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOÉ: Deus está muito triste com vocês. Além do não cumprirem as regras impostas pelo representante Dele, agora vocês deram para invadir meu quarto durante a noite para me roubar. Onde está aquela ovelha traiçoeira?&lt;br /&gt;Ovelha sai de trás do elefante&lt;br /&gt;OVELHA: “Aquela ovelha” não, eu creio que “aquele ovelha” seria mais indicado.&lt;br /&gt;NOÉ: Muito bem seu enxerido, devolva-me o cajado ou eu mando o leão te comer.&lt;br /&gt;OVELHA: HÁ-há-há, pois saiba que o leão está do nosso lado. Não é senhor leão? (O leão parece confuso, seus olhos estão cansados como se estivessem em transe) Fala aí leão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLASHBACK DO LEÃO (P&amp;amp;B)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUATI: Olhem para a situação do grande carnívoro das selvas. Se comer um dedinho sequer da minha pata, ele irá queimar nas labaredas do inferno animal.&lt;br /&gt;RAPOSA E GAMBÁ: Háháháhá&lt;br /&gt;HIENA: Qualé leão? Vai deixar? Cê não adorava correr atrás de tudo quanto é animal pequeno só para aparecer bonito no national geographic?&lt;br /&gt;Leão todo triste enquanto os bichinhos fazem roda em torno dele e cantam zombeteiros: “O leão não é de nada, virou uma piada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM DO FLASHBACK DO LEÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;&lt;&lt;&lt;&lt;&lt;&lt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Ei leão, tome logo uma decisão!&lt;br /&gt;O leão sai do transe e agora apresenta um semblante ferocíssimo que assusta todos os animais. O grande felino ruge apocalipticamente e os bichos se encolhem de medo no canto do navio. Menos Noé, que dá uma risadinha triunfal.&lt;br /&gt;LEÃO: Grrrraaauuuuuuuurrrrr!!!!&lt;br /&gt;NOÉ: hehehe... (Porém, inesperadamente o leão se volta contra Noé) Ei, peraí... fique onde está... NÃÃÃÃÃÃÃO. (Espirra muito sangue na cara dos animais que observam aterrorizados o leão devorar os dois braços e as duas pernas do velho. O papagaio decide interferir usando o cajado de Noé para conter a fera.)&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Acalme-se, companheiro leão!!!&lt;br /&gt;O leão leva uma descarga elétrica e volta a ficar calminho, sob os cuidados carinhosos da leoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena16: A noite cai. Os animais confabulam o futuro da arca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ORNITORRINCO: Nós vamos deixar Noé viver ou sacrificamos o velho de uma vez?&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Por enquanto nós deixamos, pois a maioria dos animais acha que tudo não passou de um acidente. E continuam acreditando na missão divina do velhote. Agora ele é inofensivo se o deixarmos amordaçado no porão.&lt;br /&gt;HIENA: Ei, vamos sodomizá-lo! (O papagaio, o ornitorrinco e o porco se entreolham.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena17: Porão escuro do navio. Lugar onde a sacanagem costumeira continua rolando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUMENTO: Sabe que para um jumento até que eu estou levando vida de rei aqui dentro.&lt;br /&gt;FÊMEA: Ei, ponha só metade como nós combinamos. Pelo menos até eu ir me acostumando. Sabia que os pandas além de preguiçosos são os animais mais mal dotados da floresta?&lt;br /&gt;Hiena chega com o lampião nas mãos e puxando Noé, trêmulo, por uma corda.&lt;br /&gt;HIENA: Aê jumento, trouxe um cara que está louco para participar da tua festinha.&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Seja humana ou animal, a crueldade não tem limite nesta Arca.&lt;br /&gt;JUMENTO: Opa. Tamos aê!! (Close nos olhos injetados de Noé. Pavor absoluto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena18: Imagem da cúpula pensante: Papagaio, ornitorrinco, porco e ovelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Para evitar o anarquismo, a cúpula pensante do navio colocou em prática algumas medidas estruturais. (Imagem da cúpula pensante: Papagaio, ornitorrinco, porco e ovelha.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO2: Os animais carnívoros receberam dependências novas, abastecidas pelo vasto estoque de carne congelada, até então exclusiva de Noé. Para sorte de todos, esses animais não primavam pela inteligência. Muita comida bastava para eles. (Leão, tigre, onça pintada junto às respectivas fêmeas banqueteiam-se com enormes peças de carne crua.)&lt;br /&gt;LEÃO: (Arrota) Eu ainda sou o rei dos animais. Mas como todo monarca esperto, eu prefiro deixar as funções administrativas para os outros. O bom da realeza é não fazer outra coisa além de comer pra caralho e, ainda assim, ser respeitado e adorado. (Ruge para o tigre que tentava lhe afanar um pedaço de carne.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO3: Uma chuva fina começava a cair de forma constante. Seria o princípio do grande dilúvio bíblico? (Imagem em plano aberto da arca com chuvinha em cima.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO4: Noé, que inacreditavelmente permanecia vivo, achava que sim. (Noé amarrado no alto do mastro grita histérico.)&lt;br /&gt;NOÉ: Eu avisei, seus escrotos infiéis!!! A grande tempestade está chegando!! Sem mim vocês perderão o rumo e eu construirei uma jangada com as carcaças de vocês!! Huáháháháhá!!&lt;br /&gt;NARRAÇÃO5: Pois é. A Arca agora tem novos comandantes. (Toupeira e anta usam bonés de almirante e lêem o manual de navegação de cabeça para baixo.)&lt;br /&gt;TOUPEIRA: (Olha para cima chateada) Filhodaputa presunçoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena19:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Parece que Noé estava certo. Uma noite a chuva começou a cair forte e não parou mais. Os animais estavam cada vez mais aterrorizados. (Animais encolhidos na proa estão molhados e róem as unhas.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO2: Os comandantes do navio parecem não saber o que fazer. (Anta e toupeira se olham com caras assustadas.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO3: Na dúvida, os comandantes optam por clichês da navegação.&lt;br /&gt;ANTA: Estamos com excesso de peso!!! (Elefante olha desconfiado para os animais pequenos que o rodeiam.)&lt;br /&gt;ELEFANTE: Deixa comigo. (Agarra um rato com a tromba e o atira no mar.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena20: Close em Noé que, de olhos fechados e semi sorriso, parece saborear o momento, enquanto escuta os lamentos vindos lá de baixo: “Nós vamos morrer”, “A Arca não vai agüentar por muito tempo”, “Auuuuuuuuu”. De repente surge, no mesmo quadro, a hiena, que subiu por uma escada e agora fita Noé com ar de deboche. O velho leva um susto.&lt;br /&gt;NOÉ: Aaahhhhhhh&lt;br /&gt;HIENA: E aí amigão?!&lt;br /&gt;NOÉ: Saia de perto de mim, criatura sádica.&lt;br /&gt;HIENA: Precisamos da sua colaboração.&lt;br /&gt;NOÉ: Hahahá, esqueça! De mim não obterão informação alguma.&lt;br /&gt;HIENA: Não é bem isso. O caso é que estamos nos livrando do peso morto. (Noé arregala os olhos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena21: Hiena e ovelha olham para o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OVELHA: Como explicaremos o sumiço dele?&lt;br /&gt;HIENA: Ih, relaxa. Com esta tormenta toda ninguém vai reparar.&lt;br /&gt;Noé bóia no mar com fisionomia catatônica. Uma enorme baleia surge e engole o que restou do velho. Dentro da baleia, Noé encontra Jonas sob a luz de uma pálida fogueirinha.&lt;br /&gt;NOÉ: Jonas?&lt;br /&gt;JONAS: E aê?! Tá afim de uma manjubinha assada?&lt;br /&gt;NOÉ: Como você conseguiu acender uma fogueira aqui dentro?&lt;br /&gt;JONAS: E você? Como conseguiu sobreviver sem os braços e as pernas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena22:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Os animais perderam a conta de quantos dias chuvosos haviam se passado. Um ano... ou quem sabe dois? (Imagem em close de um gato ensopado.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO2: Durante toda a intempérie, a Arca permaneceu intacta. No entanto, os animais sofriam com a fome e a umidade. (Imagem do burro comendo o manual de navegação e, ao fundo, uma enorme carcaça.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO3: Deus estava realmente puto pelo completo extermínio da humanidade. Seu plano parecia ter saído de controle. Até que um dia veio a trégua.&lt;br /&gt;RINOCERONTE: Sabe meu querido, eu nem sinto mais a chuva caindo no meu lombo.&lt;br /&gt;HIPOPÓTAMO: Seu imbecil!! Não percebe? O dilúvio findou!!&lt;br /&gt;PAPAGAIO: (No alto do mastro) E não é só isto!! Vejam!!! (Imagem de uma ilha.) Terra à vista!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena23:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Seria um final feliz para os sofridos animais? (Animais desembarcando na ilha.)&lt;br /&gt;PAPAGAIO: Eu batizo esta terra com o nome de “Animália”.&lt;br /&gt;HIENA: Nada disto! Faremos um plebiscito para definir o nome da nossa terra.&lt;br /&gt;ANIMAIS EM CORO: É isso aí! Não gostamos deste nome!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma hora depois:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAPAGAIO: (Cara de enfado. Enfia a mão na urna e retira o último voto) Este é o último voto. Ganhou Animália, por unanimidade.&lt;br /&gt;TODOS: Viva a animália!!!!!&lt;br /&gt;««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena24:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Adiantaremos a nossa estória em dois mil anos. (Imagem de uma cadela tomando sol de biquíni na praia.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO2: Isto tudo para mostrar que Deus, como toda criatura, ou entidade, ou seja lá o que, em sua onipotência absoluta, gosta mesmo é de saborear a vingança. (Imagem em close de um rato com um cigarro na boca. Sua aparência é raivosa, com cara bem desagradável.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO3: E ela veio de forma lenta e complexa. (Plano abre. Ao lado do rato, caminhando por um beco estreito, está um touro com chapéu de cowboy, roupa branca como a dos cantores sertanejos e aparência assustada.)&lt;br /&gt;BUCK (O touro): Ei Fink, eu estou com muita fome, mas muita fome mesmo. Achei um pouco injusto você me dar somente uma jujuba após termos assaltado juntos aquele supermercado.&lt;br /&gt;FINK (O rato): Pára de reclamar seu molenga, da próxima vez eu não te dou nem isto.&lt;br /&gt;BUCK: (Triste, quase chorando) Tenho saudades do rancho em que eu vivia.&lt;br /&gt;FINK: (Doentio) Então volta pra lá seu perdedor imundo!!!&lt;br /&gt;BUCK: Não, Fink. Você é meu amigo, eu não vou te abandonar. Além do mais eu prometi para mim mesmo que venceria na cidade grande.&lt;br /&gt;FINK: Fique calado!! Acabo de ter uma idéia!!&lt;br /&gt;BUCK: Eu tenho medo das suas idéias...&lt;br /&gt;FINK: Esta é infalível. Sabe Buck, você até que faz algum sucesso com as fêmeas, não é?&lt;br /&gt;BUCK: (Corado) Ah, que isso, Fink?! Eu sou muito tímido pra essas coisas, sô.&lt;br /&gt;FINK: Você vai fazer programa e assim conseguiremos uma boa grana.&lt;br /&gt;BUCK: Programa? Mas que diacho de trem é esse?&lt;br /&gt;FINK: Fica tranqüilo que eu te explico. Eu vou te agenciar mano.&lt;br /&gt;BUCK: E com esse tal de programa, dá pra arrumar grana pra comprar muita jujuba?&lt;br /&gt;FINK: Jujuba é o caralho! Nós vamos comprar heroína e virar os reis da noite.&lt;br /&gt;NARRAÇÃO4: Os valores familiares pareciam totalmente distorcidos e a juventude caminhava para o buraco. (Buck e Fink continuam caminhando pelas ruas imundas.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena25:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NARRAÇÃO: Os governantes pareciam ter enlouquecido de vez. (Uma família de jacarés, apertados em um sofá, assistem televisão. Na tela está um macaco engravatado e incrivelmente semelhante a Bush. Ele é o presidente da Animália Ocidental.)&lt;br /&gt;PRESIDENTE: Diante da ameaça de sermos atacados por armas atômicas, não deixaremos por menos. Vamos atacar primeiro!&lt;br /&gt;NARRAÇÃO2: A proliferação de armas de destruição em massa havia chegado a graus altíssimos. (Um castor com aparência maligna carrega nas costas um saco escrito “urânio enriquecido.”)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO3: Um dia, as duas últimas nações da Terra decidiram se destruir. (Imagem de uma porca de meia idade que fala na televisão. Ela é a presidente da Animália Oriental.)&lt;br /&gt;PORCA: Quero avisar ao presidente da nação vizinha que estou com o dedo no botão que irá mandá-los para o inferno.&lt;br /&gt;NARRAÇÃO4: E quando o debate chega a este nível, as conseqüências são previsíveis. (Imagem de dois imensos cogumelos atômicos.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO5: Deus parece ser um tipo bem tranqüilo. Ele pode não avisar do mal que está por vir, mas dá inúmeros sinais. (Imagem de um descampado totalmente devastado, com fumaça saindo do chão. E da terra brota um minúsculo vermezinho com um saco de gelo na cabeça. Ele olha ao redor com cara desanimada.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO6: Talvez o nosso grande Deus seja um imenso urso. Daqueles que passam boa parte do tempo hibernando. (Uma vermezinha de laço na cabeça aparece para a alegria do vermezinho solitário.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO7: De repente ele sai da caverna e percebe a merda que fez. (Começa a chover e o casalzinho brinca pelas poças com alegria. Como se o mundo os pertencesse.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO8: E aí, Ele decide começar tudo de novo, de novo. (A água da chuva começa a subir, mas os vermezinho bóiam e cospem água um no outro, na maior felicidade.)&lt;br /&gt;NARRAÇÃO9: A história da vida é assim. Uma sucessão de erros e recomeços. O único certo neste caso foi o papacu. Suas previsões não poderiam ter sido mais acertadas. (Os vermezinhos bóiam, mortos, com cruzinhas no lugar dos olhos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Paiva, 2003.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-1961230097855028571?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/1961230097855028571/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=1961230097855028571' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/1961230097855028571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/1961230097855028571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2007/07/parbola-moderna-2.html' title='A Arca de Noé'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-7348345642913911951</id><published>2007-06-19T12:44:00.000-07:00</published><updated>2010-01-22T11:29:20.120-08:00</updated><title type='text'>Fim de semana no campo</title><content type='html'>Juvenal nunca fez muitas distinções entre o campo e a cidade. Não era de se deslumbrar com nada. Nascido na fazenda, onde viveu até ingressar no ginásio, mudou-se para Uberlândia quando precisou iniciar a nova fase de estudos. A personalidade dele pouco se alterara, apesar das mudanças típicas experimentadas na adolescência. Talvez, isso tenha se dado pela freqüência com que ia à fazenda. Agora, aos 16 anos, retornava para mais um fim de semana bucólico na propriedade rural da família. Trouxera três amigos, cujos DNAs eram autenticamente urbanos. Estavam lá, encostados numa cerca, à beira do riacho, falando sobre o assunto de sempre: Sexo.&lt;br /&gt;- Tirando o Luciano, acho que não existe mais nenhum virgem no colégio – provocava André.&lt;br /&gt;- Vai se foder, André! Pergunte à sua mãe, aquela arrombada. Te digo que ela geme como um cabritinho... Mééééé – contra-atacava Luciano, pouco ligando para o fato de André ter o dobro de seu tamanho.&lt;br /&gt;- Olha Luciano, você não me engana, e eu só não vou até aí quebrar esses teus dentes de jumento frouxo porque esse sol e essa calma toda me dão uma preguiça danada. Uahhh – espreguiçou André, como um leão satisfeito.&lt;br /&gt;- Gente, vamos mergulhar na cachoeira? – interpelou Juvenal.&lt;br /&gt;- Ih, olha o Juvenalzinho mudando de assunto, aposto que o ideal de fêmea para ele são essas cabras e galinhas da fazenda. Diga lá caipirão: Você já trepou com alguma mulher na vida? – Era a vez de Pedro provocar.&lt;br /&gt;- Já.&lt;br /&gt;- Duvido!&lt;br /&gt;- Mas prefiro as vacas. Não tem erro, todas são ótimas. Mulher é um bicho que nem sempre vale a pena.&lt;br /&gt;O inconsciente coletivo pairou por alguns instantes. Os três amigos de Juvenal ficaram perplexos com a resposta desconcertante. Ele merecia ser achincalhado, mas só depois de uma pausa para a reflexão.&lt;br /&gt;André, Pedro e Luciano explodiram juntos em gargalhadas que causavam eco.&lt;br /&gt;- Ai, ai... Eu não agüento esse caipira, por isso eu gosto tanto dele... Hahahahah – contorcia-se André, transmitindo toda a simpatia irônica que nutria por Juvenal. Como espécie de líder que era, acabou influenciando também as impressões dos outros.&lt;br /&gt;- Juvenal, você não existe cara.&lt;br /&gt;André deu a sugestão:&lt;br /&gt;- Olha ali aquela vaquinha, ela é mais ou menos do seu tamanho Juve, faz aí uma demonstração para a gente ver.&lt;br /&gt;- Isso é uma bezerra, nunca fiz com uma bezerra antes. Acho que está muito nova...&lt;br /&gt;- Ora, melhor ainda, as novinhas é que são as melhores. Apertadinhas... Sem contar que, com essa aí, você nem vai precisar subir num banquinho – Reforçou André, para deleite de Luciano e Pedro, que choravam de tanto rir do ar pensativo e algo louco nas feições do caipira.&lt;br /&gt;- Vou lá analisar – levantou-se Juvenal, caminhando em direção ao novilho.&lt;br /&gt;Luciano e Pedro iam explodir em novas gargalhadas, mas tiveram as bocas tapadas por André, preocupado em não fazer Juvenal declinar.&lt;br /&gt;Sob o olhar atento dos amigos, Juvenal apalpou o bicho, abaixou-se para olhá-lo nas partes íntimas. Pareceu estar em dúvida, porém, subitamente o sangue irrompeu para sua cabeça e, como um animal, abaixou o short e...&lt;br /&gt;A bezerra não emitiu som algum, apenas levantou a cabeça e abriu as entranhas num grito surdo. O bicho parecia agonizar. Começou a emitir uns sons roucos, como alguém que vai sendo estrangulado lentamente. O concentrado Juvenal seguia sem problemas com o ato, até interromper bruscamente.&lt;br /&gt;Pedro, maravilhado com a cena, protestou logo:&lt;br /&gt;- Ah, não vai dizer que já gozou? Êta caipira mais tarado.&lt;br /&gt;- Travou – disse Juvenal, com a testa suando.&lt;br /&gt;- Hein??&lt;br /&gt;- Travou, porra!! – e começou a dar uns tapas aflitos no lombo do animal.&lt;br /&gt;Bastou para a bezerra sair trotando com um Juvenal lívido atrás, tentando, com muita cautela, acompanhar os passos do animal, cuja rota levava à estrada.&lt;br /&gt;Os três amigos ficaram sem ação. Já sentiam dores na face de tanto rir.&lt;br /&gt;- Deixa ir, daqui a pouco eles voltam. Aposto que o caipira nunca mais vai querer saber de carcar os bichos da fazenda – sentenciou André.&lt;br /&gt;- Ou então vai apaixonar – Todos voltaram a gargalhar.&lt;br /&gt;Lá estava Juvenal, engatado na bezerra, se arrasatando estrada afora.&lt;br /&gt;- Ôa, ôa, calma bichinho, calma, arre – Tentava não se desesperar.&lt;br /&gt;De tão absorvido pela situação infeliz, o incauto não ouviu o ronco de motor que crescia aos poucos. Uma van já passava ao seu lado, com todos os parentes, inclusive os avós, que também vinham curtir as delícias do fim de semana no campo.&lt;br /&gt;Diminuindo a marcha, a van foi ultrapassando devargarinho a cena grotesca. O motorista contratado pela família, assustado, perguntou por algo que não tinha resposta:&lt;br /&gt;- Virgem Maria, o que é isso, menino?&lt;br /&gt;Mas eis que Juvenal teve firmeza de espírito para responder, ou quase isso:&lt;br /&gt;- Cara! Você não vai acreditar! Essa bezerra é doida! Doida!!! Eu tava ali, numa boa, mijando num arbustro, aí ela veio se aproximando de ré e deu nisso. Vê só, cara, que bicho saliente! Essa bezerra é doida!! Lelé da cuca mesmo! – E continuou praguejando, enquanto o motorista acelerava, tentando poupar a família da continuação do show. Juvenal e cia ficaram para trás, em meio à poeira da estrada de terra.&lt;br /&gt;Dentro da van todos ficaram calados até a chegada. Para a maioria deles, tudo não passou de uma alucinação. Os avós, inclusive, pensavam em encontrar Juvenalzinho suave e comportado, assim que chegassem à casa. "Aquele deve ser outro garoto", tentavam acreditar. Vinte minutos depois chegava Juvenal egatado na bezerra.&lt;br /&gt;Os empregados da fazenda assumiram os cuidados. Um tanto de água quente, quase morna, foi o suficiente para a bezerra ir cedendo aos poucos. Ao final, enfim divididos, cada um foi para seu lado, aliviados à sua maneira.&lt;br /&gt;O fim de tarde foi bonito como nunca se vira naquelas bandas. Todos só falavam disso, e exageravam o brilho intenso do crepúsculo, talvez porque não tivessem mais nada a dizer mesmo. No campo, às vezes falta assunto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-7348345642913911951?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/7348345642913911951/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=7348345642913911951' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7348345642913911951'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/7348345642913911951'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2007/06/fim-de-semana-no-campo.html' title='Fim de semana no campo'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-4455073879015921861</id><published>2007-06-06T12:50:00.003-07:00</published><updated>2007-06-11T13:44:27.892-07:00</updated><title type='text'>Plexo Solar</title><content type='html'>Olha, custou muito, mas enfim podíamos afirmar que aquela onda de angústia, sem precedentes históricos, tinha balançado o autoritarismo. Como dizia o provérbio antigo, água mole em pedra dura... Neste caso, um maremoto. Mais certo ainda seria uma enchente: De mansinho, preencheu o vazio entre os corpos, depois, foi subindo lentamente, até deixar todo aquele país do extremo oriente num extremo ainda maior de sufoco.&lt;br /&gt;Aí veio a pílula. E o capitalismo estafado se agarrou a ela como um náufrago. Foi preciso um século e meio para amadurecer a idéia do Estado do Coma. Como ele seria? E sua regulamentação? Sim, seria necessária uma regulamentação. Senão a idéia de Estado viria abaixo. E tudo aquilo, que havia sido construído sob indefectível vigília, nivelaria-se ao grau da barbárie ocidental. Mas pessoas começaram a querer morrer. Os motivos eram diversos, e no final, era sempre a mesma coisa: Ninguém morria. E a covardia os levava ao enlouquecimento. A honra e a impetuosidade oriental, nestes dias narrados, não freqüentam nem mesmo os livros infantis. A pílula de indução ao coma, carinhosamente apelidada de soneto, tinha vindo para ficar.&lt;br /&gt;Engana-se quem atribui a sensibilidade da classe dominante aos problemas de depressão e morbidez mental da população. Aliado a isto, veio a explosão demográfica, resultado da conjunção entre prosperidade econômica e medo da solidão, que bagunçou a ilha próspera. A pílula, somente para adultos, serviu para tirar algumas pessoas de circulação por um tempo. Precisamente: quatro ou seis meses. E por se tratar de um país de pujante saúde educacional, a cultura do freelancer polivalente invadiu o país. Todos podiam sair do ar tranqüilamente, pois, existiria alguém para fazer a pronta substituição. E se surgir alguém melhor e tomar o emprego do sujeito? Não tem problema, ele poderia substituir outro. A artimanha, no entanto, era proibida para cargos de responsabilidade máxima: presidente, ministros, dirigentes de multinacionais, por aí vai. “Queria tanto ter o meu botãozinho de liga e desliga”, o que a robótica não havia concluído, o soneto dava cabo, e com um detalhe importante. Nas prateleiras, já era fácil encontrar excelentes opções para o inconsciente. Que tal apertar os olhinhos marejados, sentir as pernas fraquejarem e outras sensações causadas por imagens saudosistas liberadas artificialmente pelo soneto. Isto sem falar no mergulho pelo mundo dos fetiches. A comunidade científica corroborou: O indivíduo, amparado pela poderosa pílula, que desliga o corpo das preocupações e o induz ao auto-conhecimento seguro, renova as esperanças no presente e eleva a auto-estima. Seis meses sem comer, sendo nutrido de forma balanceada e sadia pelo composto adjunto ao soneto. Maravilha! De quebra o problema de obesidade adulta estava praticamente resolvido.&lt;br /&gt;Civilização: É bom respirá-la. Ninguém para encher o saco. “Faço o que quero porque sou civilizado, e o que quero, é o certo pelo mesmo motivo”. Baseado nestes preceitos simplificadores, estabeleceu-se um código de ética entre usuários do soneto. Você pode despertar-me se quiser. É só picar uma injeção de antídoto na minha veia, mas só o fará amparado em razões previamente aprovadas por mim. Numa mensagem gravada, a pessoa em estado de coma induzido deixará explicitada as condições para ser despertada. Se não houver carta, ele não será interrompido em hipótese alguma.&lt;br /&gt;Aik Shaun jamais foi despertado por alguém. “Não hesitem em me acordar se, algum moribundo solicitar minha presença, e, o motivo mais importante: Se a Kai quiser voltar para mim”. Aik é um renomado projetista de uma gigante do setor automobilístico. Sua sofisticação no trato com linhas e formas aflorou no dia em que tomou pela primeira vez o soneto. A proeminência de seu design, frente ao dos outros, permitiu a ele regalias como a estabilidade empregatícia. Isto, em tempos promíscuos como aqueles, era coisa raríssima. O jovem cresceu se achando um desafortunado e incerto sobre certas convicções convencionais. Bem cedo a dúvida fundamental: Querer ou não seguir vivendo esta vida? As primeiras experiências com a pílula trouxeram a Aik idéias excepcionais. Logo passou a receber da montadora o auxilio-soneto, pois, estava comprovado que o rendimento dele aumentava muito ao retornar de suas viagens. Mas a presença no trabalho, assim como no mundo real, começou a tornar-se rara nos últimos tempos. Das viagens pelo inconsciente, Aik não se interessava mais por trazer lembranças. Fazia questão de deixar tudo lá. Deste modo, ele ia, calmamente, construindo, tijolo a tijolo, o mundo ao qual pretendia habitar. Sim, nesta altura dos acontecimentos, incerteza alguma lhe neblinava a visão. Aik Shaun podia ser chamado de freelancer da vida, pois nesta, atuava de forma descompromissada. O desajustamento físico com o mundo concreto tornava–se notório quando, depois de sucessivas viagens, os odores o enjoavam horrivelmente. O jovem projetista, que não se nutria com nada além da pílula, era obrigado a fazer uso de adesivos gelatinosos sobre o epitélio nasal. Desta forma, podia aspirar oxigênio sem interferências aromáticas. Aik também era obrigado a tomar injeções de cálcio e fazer fisioterapia intensiva para, assim, conseguir parar de pé e impedir a atrofia geral. Só o soneto não bastava como fonte de elementos constitutivos para o organismo Passado um tempo, as injeções tornaram-se supérfluas: Aik já não levantava para nada. Num destes intervalos medonhos que vinham de seis em seis meses, o jovem tentava, de forma angustiante, mover algum membro de seu corpo na direção da pílula que repousava sobre a mesa. Impotente, ficou olhando para o céu noturno emoldurado pela janela. Sentia uma angústia sufocante. Às vezes, uma palpitação mais exagerada lhe desanuviava a mente, mas a tristeza rodopiava no ar e lhe esbofeteava novamente a cara. Num desses rodopios, assistiu aterrorizado a materialização de um vulto, que lhe tapou a vista da janela. Após a materialização, sentiu-se estranhamente calmo.&lt;br /&gt;- Como conseguiu entrar aqui?&lt;br /&gt;- Adiantaria eu dizer que na verdade eu não estou aqui?&lt;br /&gt;Aik foi enxergando aos poucos os contornos daquele misterioso rosto e, sem sabem bem o porque, foi tomado por uma estranha emoção.&lt;br /&gt;- Explique melhor... Por favor – Conseguiu balbuciar.&lt;br /&gt;- Aik, você não se lembra de mim porque não chegou a&lt;br /&gt;conhecer-me pessoalmente. Sou conhecido por ti apenas como o avô materno póstumo.&lt;br /&gt;- E como você veio parar aqui?&lt;br /&gt;- Simples, viajei quarenta anos-luz. Por isto eu disse&lt;br /&gt;que na verdade não estou aqui, entende? Para você eu já morri, e para mim, você nem nasceu. Estranhas as formas como se dão estes cruzamentos, mas, acredite, eles são inevitáveis.&lt;br /&gt;Aik Shaun sentiu os olhos submergirem sob densa crosta lacrimosa. Quando conseguiu emergir, lá estava a janela emoldurando o céu estrelado. Sentiu que já não havia parede cuja transposição fosse impossível. Então fechou os olhos e deixou a consciência escapulir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Léo Paiva, fevereiro, 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-4455073879015921861?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronopyo.blogspot.com/feeds/4455073879015921861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5826060775236228671&amp;postID=4455073879015921861' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4455073879015921861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/4455073879015921861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2007/06/blog-post_06.html' title='Plexo Solar'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5826060775236228671.post-2297146174693410500</id><published>2007-04-26T12:03:00.000-07:00</published><updated>2009-04-14T09:37:22.668-07:00</updated><title type='text'>O filho pródigo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/RjLOW1gT3eI/AAAAAAAAAAM/XqBuhUIKb1M/s1600-h/bez3.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/RjLOW1gT3eI/AAAAAAAAAAM/XqBuhUIKb1M/s320/bez3.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5058332223205531106" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;            O filho pródigo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Toc, toc, toc.&lt;br /&gt;          A porta da casa grande abriu-se e, por trás dela, surgiu um criado narigudo com ares petulantes, e se assustou com o que viu. Reproduziu estas palavras com o indisfarçável sotaque de gentio do interior:&lt;br /&gt;          -Por júpiter! Passa fora daqui, ô lazarento!&lt;br /&gt;          Era perfeitamente compreensível o susto do criado da fazenda. Estático à sua frente estava uma figura de causar náusea: Cabelo comprido, tão sujo que já se percebiam dread-locks, roupas rasgadas e imundas a ponto de não se imaginar as cores originais, o cheiro era algo indescritível, e tinha também mostarda nos sapatos(!). O criado ainda insistiu.&lt;br /&gt;          -Chegaste em péssima hora. Não temos comida a dar nem aos porcos, a você então... Passar bem e, por favor, evite aproximar-se dos animais para não contaminá-los com alguma pestilência – O pobre miserável enfim retrucou e o fazia com certa nobreza.&lt;br /&gt;          -Contaminada estava minh’alma, mas ao defrontar-me com a dureza dos desvalidos... – O criado impacientou-se.&lt;br /&gt;         -Ei, ei! Eu não perguntei nada. Mas que maldita época esta em que tudo quanto é cão sarnento anda com a maior pose de Messias e ainda fica tagarelando por metáforas. Vai procurar teu rebanho e não canse a minha beleza. – Dito isto, bateu a porta com desmazelo.&lt;br /&gt;         O mendigo não arredou o pé da porta que, lentamente, foi se abrindo de novo e, a mesma cara nariguda apareceu.&lt;br /&gt;        -Tu me lembras alguém. Claro, parece com Simão, o filho do meu patrão Booz. Serias tu o outro filho que partiu daqui a algum tempo? – O empregado já tinha certeza disto, sabia que aquele playboyzinho não resistiria muito à vida lá fora, portanto nem esperou a resposta – Venha, entre, desculpe os maus modos, é que sou novo na fazenda. Meu patrão não vai caber em si de felicidade, certamente irá querer matar o bezerro gordo em sua homenagem. Será uma boa hora para pedir um aumento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A notícia havia chegado ao estábulo e uma vaca chorosa vivia momentos de apreensão junto ao seu único bezerro.&lt;br /&gt;     -É mesmo o que você quer, meu filho?&lt;br /&gt;     -Mãe, se eu não fugir serei sacrificado. A vida inteira vivi este paradoxo. Fui criado com amor e fartura para ter este inapelável fim. A volta do filho pródigo acelerou o meu destino. Peço-lhe minha parte da herança para poder mudar esta realidade. Sei que o seu orçamento é pequeno, mas...&lt;br /&gt;    A pobre vaca não parava de chorar, então o boi assumiu as negociações.&lt;br /&gt;    -Ele está certo. Este menino é gordo e imaturo, precisa de uma experiência como esta. Além do mais, não há outra saída.&lt;br /&gt;    -Filho, snif... O que temos não é muito. Um pouco de alfafa e o sino que carregava no pescoço para lhe entregar um dia – conseguiu balbuciar a vaca, para revolta do boi.&lt;br /&gt;    -Que sininho o que! Quer que ele vire alvo fácil para os predadores. Leva um pouco de alfafa e o resto ele rumina.&lt;br /&gt;   Enfim, o bezerro gordo partiu, levando seu quinhão de alfafa sob o olhar bovino da vaca resignada. Lamentou muito por não ter fundos para mandá-lo p’ro exterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          A notícia da fuga do bezerro gordo, xodó da fazenda, desanimou muito as festividades. Passadas as comemorações da volta do filho pródigo, o que ficou foi o vazio nos corações do velho fazendeiro e dos outros. O filho pródigo voltou mais chato do que nunca e sua serenidade de sábio hindu fez dele uma figura ainda mais inútil.&lt;br /&gt;          Um dia o bezerro voltou. O animal não sabia quanto tempo tinha ficado fora, pois os bovinos contabilizam o tempo de forma muito complexa. Talvez duas semanas. A alegria foi enorme, o animal voltou cansado e raquítico. Simão, o irmão do filho pródigo, com todo o seu senso de justiça, sentenciou:&lt;br /&gt;          -Vamos servir um banquete para o pobre animal!&lt;br /&gt;          O empregado novo da fazenda deu cabo de girar o espeto que empalava o corpo do filho pródigo. Era menos apegado ao bichinho. O bezerro comeu com molho inglês e muita satisfação. Depois voltou para o estábulo e abraçou ternamente sua mãe.&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MORAL&lt;/strong&gt;: O que te alimenta, às vezes, também te devora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;em&gt;&lt;/em&gt;Ilustração de Ricardo Coimbra&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5826060775236228671-2297146174693410500?l=cronopyo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/2297146174693410500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5826060775236228671/posts/default/2297146174693410500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronopyo.blogspot.com/2007/04/parbola-moderna-1.html' title='O filho pródigo'/><author><name>Léo Paiva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06080130127298019809</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_1YXNMGymWMw/RjLOW1gT3eI/AAAAAAAAAAM/XqBuhUIKb1M/s72-c/bez3.jpg' height='72' width='72'/></entry></feed>
